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Posts Etiquetados ‘cristianismo’

Eu sou comunista

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Eu sou comunista

É muito interessante e instrutivo discutir política e economia com pessoas que já tem o cérebro engessado pela idade e pela experiência. Os argumentos que temos que refutar e a difuculdade em fazer entender coisas extremamente elementares revelam, como a solidez do tempo, os meandros por onde uma ideologia se implanta.

Já disse aqui tantas vezes que não sou e nem me considero um “expert” nesses assuntos, e sem dúvida, fossem meus interlocutores pessoais mais “bem formados” naquilo que crêem, provavelmente eu poderia ser liquidado rapidamente com meus argumentos superficiais.

Mas acredito que nos últimos meses em especial eu tenha sido contaminado com algum vírus, cujo efeito é o de manter nossas antenas ligadas a todo assunto ligado, direta ou indiretamente, explícita ou implicitamente, aos temas acima. O que me levou a participar de algumas conversações, reais e virtuais, e à leitura e consideração de muitos artigos e pontos de vista.

Assim, cheguei à seguinte conclusão: eu sou comunista. Um “ser” que não se desenvolveu pela leitura de Marx, e nem pelo embate social contra as “classes dominantes”. Não, definitivamente, não estou nem entre os intelectuais marxistas, nem entre os desfavorecidos pelo destino  que se agarram a uma utopia, um “céu na terra”, como esperança de mudar de vida. Também não sou um playboy que quer ficar bonito na fotografia.

Meu “ser comunista” deriva de uma única fonte: o evangelho. É um derivação praticamente automática. Basicamente, é impossível ser cristão e não ser comunista. Mas isso é uma coisa que só se percebe quando conseguimos erguer nosso pescoço um pouco que seja acima do ronronar das lamúrias sacerdotais igrejas e templos a fora, e de duas uma: ou vivemos uma verdadeira experiência cristã, ou lemos o texto dos evangelhos sem os ouvidos entupidos pelo mal caratismo sacerdotal.

Cito um exemplo, para explicar melhor o que digo: a aproximadamente 2 anos atrás eu estava nada mais nada menos que dentro da Basílica de São Pedro, no Vaticano em Roma, onde esperava para assistir a uma missa. Provavelmente, a única missa que fui nos últimos 20 anos com finalidades quase religiosas, porém no caso impulsionado por finalidades turísticas.

Foi quando uma espécie de “pré-missa” aconteceu. Basicamente, um sacerdote auxiliar subiu no altar e fez um discurso que serviria de “preâmbulo” à missa. Evidentemente, não tenho como me lembrar de tudo o que ele disse, mas uma coisa em especial achei muito interessante: ele se referia a nós como peregrinos. Evidentemente, ele sabia que muitos dos que estavam ali eram simplesmente turistas, que como eu, estavam interessados em ver como era uma missa no coração do mundo católico. Eu, particularmente, tinha sido atraído ao evento porque no dia anterior havia visitado a Basílica e vi que ali as missas eram em latim acompanhadas de um coro Gregoriano. Portanto, meu “quase religiosas” acima tem uma parte de “estética”.

Na hora e ainda hoje me pergunto: teria ele usado o termo peregrino para se referir a nós porque? Minha tendência é acreditar que isso se justifica pela tentativa de valorizar nossa presença, contornar um nítido problema turístico e injetar um sentido religioso real naquele acontecimento.

Mas o mais importante foi a homilia do padre (não é o Papa que celebra as missas cotidianas na Basílica. Que decepção!). Nela, me lembro do sacerdote fazer a seguinte consideração: que o cristianismo havia penetrado todos os âmbitos da vida social. Que nossa sociedade era cristã e que, prova disso, era o fato de que pagamos impostos, pois estes seriam equivalentes ao “dízimo”, onde cada um dá uma parte do seu para o bem comum, promovido pelo estado que é, ele mesmo, uma instituição moldada pelo cristianismo.

Seria um exercício enfadonho mesmo para uma criança de 7 anos demonstrar a estupidez do sacerdote e seus tamanhos equívocos. Mas basta lembrar que o estado não esperou o cristianismo para impor impostos. De qualquer forma, com esse argumento, o representante da Igreja que tem sua sede lá onde estas palavras foram proferidas, parecia ter a intenção de dar a césar o que é de césar, e a Deus o que é de Deus, mas na verdade o que estava e está escondido por trás dessa ideologia é servir a dois senhores ao mesmo tempo, tarefa que, sabemos, é impossível neste contexto.

E isso são as igrejas, os sacerdotes e etc. Generalizo sim! Me mostre você, leitor, uma excessão…

Por isso disse acima que, para o caso de alguém que jamais teve o privilégio de ser arrebatado em uma experiência mística, é necessário levantar o pescoço um pouco acima das balelas sacerdotais para entender o texto.

E o texto, entre outras coisas, também fala de política e economia. Então, voltemos ao comunismo e ao assunto introduzido.

Em primeiro lugar, quase ninguém sabe o que é o comunismo. Normalmente, quando não associam ao termo malvados comedores de criancinhas (não estou mais falando da igreja católica, mudei de assunto, preste atenção!), pensam nos regimes cubano e soviético. Ora, já disse e repito: o comunismo nunca existiu na face da terra. Na antiga União Soviética e em seus derivados, o regime só teve do comunismo o nome.

Em segundo lugar, ouvimos frequentemente a seguinte pergunta: ah sim, então agora a sociedade não se baseia no capital e no dinheiro, então você vai viver do que? Vai trabalhar menino! Como se plantássemos feijão em dinheiro e não na terra, como se a matéria prima para construir casas, carros e aviões fosse o dinheiro, e não tijolos, metais e plásticos. Confundem os recursos e os meios de produção, que existem independentemente do capital, do homem ou da sociedade, com o mecanismo de apropriação desses recursos e meios. Pensam que a não existência de propriedade privada é o mesmo que miséria e indigência.

Enfim… Outro dia desses assisti novamente o ZeitGeist, junto com algumas pessoas que eu acredito que poderiam se beneficiar do que ali é dito. Me lamento profundamente que os idealizadores do documentários tenham preferido iniciar com o assunto religião. Além de abordarem a coisa de forma superficial e às vezes equivocada, fazem com que boa parte dos expectadores se fixem nesse ponto, e não entendam que o mais importante vém depois.

Mas pior do que isso, é que a existência de alguns equívocos nessa parte nos faz suspeitar de que possam haver outros também nas outras partes. Mas isso deixo para depois. A idéia central, ali, não é outra que não o comunismo, porém, dessa vez, dentro do american way. Interessante que seja assim, pois como já disse também aqui nesse blog, os EUA são o país que reúne todas as condições necessárias à revolução comunista. A primeira delas, é o estágio avançado e já quase em putrefação do seu sistema capitalista. O segundo é que lá, o comunismo foi recalcado, e “ZeitGeist”, “Walden II”, etc. são nada mais nada menos que o retorno do recalcado.

Em outras palavras, é o inverso do que aconteceu na União Soviética: idealizam sistemas que do comunismo tem tudo, menos o nome.

Também se ouve: “você é um sonhador, isso que você diz é uma utopia, é acreditar no impossível”. Que engraçado. Acreditam que é impossível, através da razão, recriar a sociedade em outra base que, na mesma tacada, elimina a maioria dos problemas da nossa sociedade “natural”, mas acreditam em fronteiras, leis, autoridades e, principalmente, acreditam que a sociedade poderia ser melhor, nas mesmas bases, se todos fossem como eles, o que inclui que votassem em quem eles votam, e coisas do gênero.

Em outros termos, não percebem que sonham com algo muito mais inalcançavel, que seria justamente uma mudança súbita e repentina na vontade e no coração de todos, ou em uma classe política honesta. Acreditam em “justiça”, “direito”, “verdade”… acreditam na televisão, esse grande circo, e muitas vezes, acreditam também em Deus! Incrível… e eu, o comunista, é que sou o sonhador…

Mas o mais interessante é ouvir o seguinte: “você é jovem, ainda vai entender!”. Ora, muitas das pessoas que me dizem isso, me dirão ainda quando eu tiver 60 anos que “sou jovem”… Não importa, hoje eu respondi: “vocês são velhos, estão para morrer, e junto com vocês, esses dogmas político-econômicos nos quais lhes fizeram acreditar que eram os únicos possíveis”. Amén!

O alimento da vida é a morte – segunda parte: o abatedouro

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O alimento da vida é a morte – segunda parte

O abatedouro

Então, a este ponto, considerando que o presente post é uma continuação do post anterior, parto do pressuposto de que o leitor terá assistido ao documentário indicado e seu adendo.

Começo fazendo uma síntese temática do documentário e seu adendo. Me parece que podemos dizer que seu conjunto, para cumprir seus objetivos, atravessa três grandes temas. O primeiro deles é a religião, o segundo a economia e o terceiro e último é o que podemos entender como a proposta para solucionar os problemas identificados nos dois primeiros.

Qual é o problema? É o fato de que a condição humana, especialmente a partir da perspectiva da organização social (a fazenda), é uma condição de opressão e alienação generalizadas, em que o homem (o gado) acaba por se ver escravizado por forças poderosas que em geral ele desconhece (os fazendeiros). Além disso, o pior aspecto deste estado de escravidão é o fato de que, diferentemente da escravidão “clássica” – isto é, aquela que era imposta à força -, esta seria deliberadamente calculada pelos senhores para fazer com que nós desejássemos sermos escravos.

Pois bem. A partir de agora passo então a considerar cada aspecto em separado. O primeiro deles é a tese exposta no documentário a respeito da religião.

A abordagem feita pelo documentário a respeito do tema religião e em especial do cristianismo é basicamente uma abordagem crítica, que tem o objetivo de reduzir os aspectos radicais da mensagem cristã e homogeneizar a função do messias com aquela de outros mitos paralelos.

Acredito eu que ao nos servirmos da razão, nos servimos basicamente de duas ferramentas cognitivas. Uma delas é a nossa capacidade de identificar semelhanças, perceber como uma coisa ou no que uma coisa é semelhante ou igual a outra. A outra ferramenta é a nossa capacidade de discriminar, de identificar as diferenças, isto é, como ou no que uma coisa é diferente de outra coisa.

Toda a história do pensamento humano oscila entre esses dois pólos. Podemos facilmente encontrar correntes filosóficas que ora privilegiam uma, e ora privilegiam outra dessas tendências. No entanto, uma consideração justa e equilibrada das coisas não é muito comum.

Por exemplo, podemos afirmar com a maior tranqüilidade que cada ser humano é único e singular. Que não existe ninguém igual a ninguém. E tenho certeza de que a razão encontrará elementos que justifiquem plenamente esse ponto de vista. Por outro lado, podemos também afirmar que somos todos iguais, que somos literalmente “farinha do mesmo saco”, feitos, cada um de nós, do mesmo pó estelar do que é feito tudo o mais no universo. Além disso, a simples idéia de se acreditar possível fazer uma “ciência” do homem, pressupõe a existência de uma identidade, de uma igualdade entre todos, caso contrário seriam necessárias uma ciência para cada homem. Em outros termos, tenho também certeza de que a razão encontrará elementos que justifiquem, tanto quanto no outro caso, esse ponto de vista.

Da mesma forma essas ferramentas da razão podem ser aplicadas a qualquer coisa. Entre elas, a religião.

Assim, vejo desde o princípio do documentário um esforço de identificação do Cristo com outras variantes de divindades solares, mostrando os inúmeros paralelos que cercam as histórias de todos eles. Entre eles, o mais destacado é o caso da divindade egípcia Hórus.

Como o próprio documentário explicita, não se trata de uma novidade nem de um revelação recente. Os próprios patriarcas da igreja já haviam observado tais semelhanças, atribuindo-as, muitas vezes, à ardilosidade do diabo, mas em outras, que não constam no documentário, ao “logos spermátikos”, isto é, “à semente da palavra”, que já teria sido disseminada entre os povos com uma certa antecedência antes do advento pleno do Lógos.

Além disso, mitólogos e mitógrafos de todas as épocas já haviam salientado tais fatos. Principalmente, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, através de um amplo e exaustivo trabalho de comparação entre os mais variados mitos e religiões (além de sonhos e delírios), e partindo sempre do pressuposto de que estes seriam redutíveis a projeções no campo transcendental da própria natureza humana, chegou a adotar o conceito de “arquétipo”, para se referir a esses “padrões” e protótipos, dos quais demonstrou a universalidade e concluiu com a idéia de um “inconsciente coletivo” – uma espécie de rizoma comum a toda a espécie, onde todos são iguais, e que fornece as estruturas básicas, elementares, por onde toda e qualquer criação da natureza humana deveria transcorrer.

Ora, tudo isso é muito bonito, e realmente, não há como negar as semelhanças entre a estória do Cristo e a de tantas outras divindades. Mas afinal, que semelhanças são essas? Todas elas dizem respeito, digamos, ao mito. No caso do Cristo, por exemplo, o “fato” de ter nascido de uma virgem, de ter iniciado seu opus já em tenra idade, de ter sido morto e crucificado e de ter ressuscitado ao terceiro dia, de ter operado milagres, etc. Além disso, uma série de “títulos” são destacados, por exemplo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, o “cordeiro”, “a luz”, etc. Sem contar os aspectos astrológicos ligados ao próprio mito, digamos, a sincronia entre os eventos nas constelações celestes e o próprio tecido da trama.

Pois bem, como disse, todas essas semelhanças são inegáveis, e qualquer um que tenha se dedicado um pouco que seja ao estudo da história cristã não terá se surpreendido com elas. Mas o documentário não faz qualquer menção às diferenças entre as estórias, e embora boa parte dessas diferenças possam ser atribuídas exclusivamente a elementos de natureza cultural e contextual, outras não.

Em primeiro lugar, observemos que o Cristo provém diretamente da tradição judaica. Pode-se argumentar, como se faz no documentário, que o próprio monoteísmo (elemento distintivo do judaísmo nos tempos antigos) teria nascido no Egito. Sim, é verdade: há evidências de que durante um curto período houve no Egito antigo uma tentativa de se instalar uma religião monoteísta. É impossível dizer se isso foi a causa da adoção do monoteísmo entre os hebreus, ou se foi a própria presença maciça de hebreus em terras egípcias, primeiro como conselheiros dos faraós (se crermos nas estórias sobre José) e depois como escravos, que teria influenciado por pouco que seja a cultura egípcia.

Fato é que tal tentativa de instalar um monoteísmo no Egito foi rapidamente sufocada, provavelmente por interesses sacerdotais (os sacerdotes dos outros deuses) que viam assim eliminadas suas fontes de renda. Além disso, esse pequeno proto-monoteísmo ainda implicava em uma identificação do deus Rá com o Sol e na sua personificação na figura do faraó. Tinha, portanto, resquícios fortes de um movimento estritamente político e preservava a figura do “sol” (cuja importância para a humanidade é de longa data reconhecida e louvada) como “forma” do deus em questão.

Ora, se é verdade que a narrativa judaica da criação, do dilúvio e etc. bebeu nas fontes que são as mesmas que deram origem a outras narrativas, como por exemplo aquela babilônica, do Enuma Elish, e outras (evidenciando assim, mais paralelos mitológicos entre as diversas histórias), é também verdade que a narrativa judaica operou uma profunda modificação em sua abordagem.

A essência dessa modificação pode ser assim expressa: em todas as estórias do mundo, há o céu e a terra… há o sol e as estrelas… há as águas e etc.. Todos esses elementos, de um jeito ou de outro, estão ali incluídos. No entanto, é só na narrativa judaica que esses elementos não são deuses. Nas outras mitologias, as águas são, por exemplo, “Tiamat”, ou o Céu é o titã “Uranus”, ou a terra uma das formas da deusa grande mãe, “Gaia”, e por aí vai. Na narrativa judaica, a terra é só a terra, o céu é só o céu e o sol é só o sol. Um luzeiro que serve para orientar os dias, as festas… E não um Deus, que nasce de manha, ganhado a batalha contra Nix, a noite, e perdendo-a no crepúsculo… todos os dias. Enfim, o judaísmo opera uma profunda dessacralização da natureza. A natureza, no judaísmo é reduzida a: natureza. E “o sagrado” não é mais identificado a nenhum desses elementos naturais, mas é suposto o criador de todos eles, mas que está fora de todos eles. O Deus judaico é anterior, e portanto superior, a qualquer elemento natural.

Bem, é no interior dessa tradição que o Messias surge. Não que faltasse a essa tradição paralelos com os mitos de outros povos. Pelo contrário, a própria expectativa da vinda de um messias é um tema comum praticamente a todas as religiões… O escolhido, “the one”, o “filho de Deus ou de algum deus”, enfim.

Fato é que também, enquanto enormes impérios politeístas se degladiavam em torno do mar mediterrâneo, enquanto um pequeno e insignificante povo cultivava sua religião não oferecendo a esses impérios mais que o incômodo de um povo não muito facilmente dobrável em seu espírito, em um período muito curto de tempo, todos esses povos, impérios e nações seriam profundamente afetados e transformados pela religião desse povo. Em um espaço muito pequeno de tempo, para as dimensões da história, toda uma massa humana politeísta estaria convertida a uma ou outra forma de monoteísmo derivada do judaísmo.

Dizia um antigo professor (judeu): “Os judeus só ficaram famosos no mundo graças ao cristianismo”. Pois bem, até aqui o leitor talvez ainda queira sustentar que estamos girando em torno de questões contextuais e culturais. Particularmente, eu acredito que não. Acredito que tais diferenças sim, são culturais, mas são também suficientes para mudar tudo. Mas, andemos ainda um pouco mais adiante.

O documentário questiona, entre outras coisas, a “historicidade” do evento Cristo. Como se, ter ou não ter existido na história fosse um argumento fatal ou, sequer, demonstrável, seja por um lado, seja por outro. Que importa se Pitágoras existiu mesmo ou não? O que importa é que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos! Mas não. No caso do Cristo a questão é bem mais séria.

Apontam que nenhuma grande fonte história importante fez qualquer referência importante ao Cristo. Ora bolas, o testemunho dos que conviveram com Ele não servem como fonte? Além disso, imagine leitor que, nesse momento, surja diante de você alguém que já faleceu, em carne e osso, e que lhe permita que você possa tocá-lo e ter certeza de que sim, de que é ele mesmo. E logo depois esse alguém parta, vá embora. Agora você vai às ruas e começa a gritar: “fulano de tal apareceu para fim, eu toquei nele(a)”. Supondo que você não vá parar em um hospital psiquiátrico, é provável que muito pouca gente te leve a sério, e é absolutamente pouco provável que sua estória seja narrada nos livros de história do futuro.

Mas talvez aí você argumente: ah, mas Jesus era um cara importante, tinha discípulos e tudo mais. Sim, Jesus era uma cara importante. Especialmente, era popular entre as pessoas pobres e humildes de Israel. Para os doutores de Israel e de Roma, não passava de mais um profeta… mais um que esse povo burro e ignorante fica andando atrás… Mais um prestidigitador que fica fazendo truques e enganando esses pobres coitados iletrados e deseducados, que acabam inventando lendas a respeito dele… Honestamente, para que contar a estória desse sujeito? É importante ressaltar que o movimento cristão surgiu pequeno, a seita do nazareno, em seus primórdios, era um pequeno grupo de pessoas e testemunhas mais próximas que haviam acompanhado o Cristo. E se esse mesmo Cristo foi crucificado, o foi entre tantos, e só aos poucos o cristianismo se expandiu e se tornou uma religião institucionalizada, perdendo, inclusive, creio eu, o fio da meada (mas isso é outra estória).

Logo, não vejo porque esperar que um historiador da época dedicasse páginas e páginas de suas “histórias” para narrar as “fábulas” desse povinho analfabeto…

Mas e eu? Acredito eu na ressurreição do Cristo? Honestamente, não penso nisso. Não acho importante. Se a estória acabasse com a morte na cruz, para mim, seria a mesma coisa. Se houver, para mim, uma vida após a morte, é lucro. Mais importante do que a questão da ressurreição, para mim, é a noção de Graça!

O que é a Graça? Meus Deus, eu não tenho a menor idéia, e aí sou obrigado a recorrer aos outros. Em primeiro lugar, quero frisar o seguinte: a Graça é singular, única. Ou seja, é um componente exclusivo da mensagem cristã, que você não vai encontrar nem na estória de Hórus, nem na estória de Dionísio, e nem em nenhuma outra estória de nenhum outro “filho do sol” que “nasceu de uma virgem” e que “morreu e ressuscitou” e que era a “luz do mundo” e estava alinhadíssimo com as estrelas.

A Graça… o que é? A graça é a solução para minha soberba e arrogância, a graça é a solução para o “furo no real”, a graça é o conserto do que não tem conserto, é o que faz possível o impossível. A Graça é a dissolução, o fim do karma!

Se o leitor me permite ser “pop” e parafrasear o Bono, do U2, a graça é o que faz com que o que eu tenho de bom tenha mais valor que o que eu tenho de mal. Tenha mais valor para quem? No mínimo, para qualquer cristão.

Jesus morre na cruz. O que isso quer dizer? Quer dizer o que eu continuarei dizendo nas entrelinhas dos próximos posts sobre o mesmo documentário: que a morte é o alimento da vida (sairei das entrelinhas no último). E isso, nenhuma outra estória de messias crucificado quer dizer.

Em síntese: sim, a mensagem Cristã foi recheada de mitos pagãos, a narrativa da estória Cristã foi formatada segundo os trilhos dos mitos pagãos. E talvez tudo isso tenha ajudado a propagar a mensagem, mas ao custo de ao mesmo tempo escondê-la, pois não é essa a mensagem cristã.

Portanto, Zeitgeist, nesse ponto, a menos que vocês me digam que seus alvos eram “as instituições cristãs”, isto é, a Igreja Católica Apostólica Romana e suas filhas rebeldes, que sempre, inclusive em suas rebeldias, estiveram do lado errado da questão e já deixaram de ser “cristãs” a muito tempo, se tornando parceiras comerciais dos fazendeiros, então, vocês erraram completamente o alvo.

Sobre a economia não. Mas esse é o tema do próximo post. No último, volto ao tema da religião.

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