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Lacan e a religião – fragmentos

Obs. preeliminares: volta e meia da aquela vontade de estudar direitinho, sistematicamente. O que segue é fruto de um período desses. Em algum momento entre 1999 e 2001, eu achei que deveria “catalogar” qualquer referência do Lacan ao assunto religião, visto estar fazendo uma pesquisa sobre isso. Como se verá, não está completo. Ou seja, há muita coisa (seminários, especialmente os que foram publicados depois disso, os escritos, e outros escritos, e os outros escritos ainda) de fora. Mas eu acho que já pode dar uma idéia e, quiçá, ser últil a algum sem noção que por ventura se envolva com o assunto em pauta.

Nota: normalmente, entre parentêses ao final da citação, está o numero da página e eventualmente o parágrafo, contando desde o primeiro que começa na página em questão. As referências entre colchetes apontam para um trecho mais longo em que o interessado, para ter acesso ao texto propriamente dito, deve ir na página (e parágrafos) e olhar. De uma maneira geral, se você realmente se interessa por isso, é bom sempre ir lá no texto e conferir. Por um lado, para situar o contexto, e em segundo, para verificar se os numeros de página da edição dos livros que usei conferem com a sua.

No mais, sem modificação. Algumas partes estão mais organizadas que outras, e com um pouco de paciência qualquer um decifrará meus “sinais”. O melhor está no fim. Bom divertimento.

***

SEMINÁRIO 1 (1953/54) – Os Escritos Técnicos de Freud. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 199?

“… Eles tem olhos para não ver. É preciso sempre tomar as frases do evangelho ao pé da letra, sem isso evidentemente não se compreende nada – acredita-se que é ironia.” (180)

[introjeção e comunhão] (Cf. 196, pars 2-3)

“É preciso a uma criatura alguma referência ao além da linguagem, a um pacto, a um engajamento que a constitui, para falar propriamente, como um outro, incluído num sistema geral, ou mais exatamente universal, dos símbolos inter-humanos. Não há amor funcionalmente realizável na comunidade humana, se não é por intermédio de um certo pacto, que, seja qual for a forma que toma, tende sempre a se isolar numa certa função, ao mesmo tempo no interior da linguagem e no exterior. É o que se chama função do sagrado, que está para além da relação imaginária.” (202)

“É exatamente o que chamamos aqui o símbolo. O nomem [nome] é a totalidade significante-significado, particularmente enquanto serve para reconhecer, porque sobre ela se estabelece o pacto e o acordo. É o símbolo no sentido de pacto.” (291)

… nomem, numem. A palavra nomem tem com efeito uma forma original que a coloca em relação com numem, o sagrado.” (291)

“… [citando Freud citando Mefistófeles de Goethe] Deus não pode ensinar aos seus meninos tudo o que Deus sabe. O recalque é isso.” (306)

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SEMINÁRIO 2 (1954/55) – O Eu na teoria de Freud e na Técnica da Psicanálise. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 199x

“O Deus enganador, no fim das contas, é a reintegração daquilo que sofrera rejeição, ectopia. (16)

“Alguns estão muito preocupados vendo-me referir a Deus. No entanto, é um Deus que apreendemos ex machina, a não ser que extraiamos machina ex Deo.” (66)

[Referência à lei e ao Bezerro de ouro]  (81)

“… por vezes os caminhos do pensamento são obscuros, os do Senhor são insondáveis.” (108)

“Há, de ora em diante, o pecado como terceiro termo, e não é mais na via da reminiscência, mas na da repetição, que o homem encontra seu caminho.” (116)

“… ele [Freud] tratou, efetivamente, o sonho como um texto sagrado. Um texto sagrado se interpreta segundo leis muito particulares, e cada um sabe que por vezes estas interpretações surpreendem. É preciso também conceder toda sua importância à palavra texto.” (161)

[Karamazov] “… se Deus não existir … – Se Deus não existir, diz o pai, então tudo é permitido. Noção evidentemente ingênua, pois, nós, analistas, sabemos muito bem que se Deus não existir então absolutamente mais nada é permitido. Os neuróticos nos demonstram isto todos os dias.” (165)

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SEMINÁRIO 7 (1959/60)- A ÉTICA DA PSICANÁLISE. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1997

- LOGOS – “… lhes mostro a originalidade da conversão freudiana na relação do homem ao logos.” (15)

- A LEI E O REAL – “… a lei moral, o mandamento moral, a presença da instância moral, é aquilo por meio do qual, em nossa atividade enquanto estruturada pelo simbólico, se presentifica o real – o real como tal, o peso do real.” (31)

- A BUSCA DO OBJETO/COISA/A E O PARAÍSO PERDIDO – “… é esse objeto, das Ding, enquanto Outro absoluto do sujeito, que se trata de reencontrar. Reencontramo-lo no máximo como saudade. Não é ele que reencontramos, mas suas coordenadas de prazer, é nesse estado de ansiar por ele e de esperá-lo que será buscada, em nome do princípio do prazer, a tensão ótima abaixo da qual não há mais nem percepção nem esforço.” (69)

- FÉ – “A atitude radical do paranóico, tal como Freud a designa, interessa o modo mais profundo da relação do homem com a realidade, isto é, o que se articula como fé.” (71)

- A COISA – “Das Ding é originalmente o que chamaremos de o fora-do-significado.” (71)

- OS 10 MANDAMENTOS – FALA – INCESTO – “Esses mandamentos são dez? Quem sabe, talvez sim [...] Esses dez mandamentos … não vou deter-me no seu caráter interditivo, mas direi, como já indiquei aqui, que talvez sejam apenas os mandamentos da fala, quero dizer que explicitam aquilo sem o que não existe fala … possível [...] nesses dez mandamentos, em parte alguma está assinalado que não se deve dormir com a mãe [...] Os dez mandamentos, não poderíamos … interpretá-los como algo muito próximo daquilo que funciona efetivamente no recalque do inconsciente? Os dez mandamentos são interpretáveis como destinados a manter o sujeito à distância de toda realização do incesto, como uma condição, e uma só, que é a de nos darmos conta de que a interdição do incesto não é outra coisa senão a condição para que subsista a fala [...] regula a distância do sujeito a das Ding, uma vez que essa distância é justamente a condição da fala [...] como, sob um outro ângulo, não se dar conta, simplesmente enunciando-os, de que eles são a lista e o capítulo de nossas transações de cada instante? Eles expõem a dimensão de nossas ações como propriamente humanas. Em outros termos, passamos nosso tempo violando os dez mandamentos, e é justamente por isso que uma sociedade é possível … ” (88-90)

- O BEM SUPREMO – A MÃE – “… o passo dado por Freud, no nível do princípio do prazer, é o de mostrar-nos que não há Bem Supremo – que o Bem Supremo, que é das Ding, que é a mãe, o objeto do incesto, é um bem proibido e que não há outro bem. Tal é o fundamento, derrubado, invertido, em Freud, da lei moral.” (90)

- AMOR AO PRÓXIMO – “Se algo, no ápice do mandamento ético, termina de uma maneira tão estranha, tão escandalosa para o sentimento de alguns, articulando-se sob a forma do Amarás teu próximo como a ti mesmo, é por ser próprio à lei da relação do sujeito humano consigo mesmo que ele se constitua, ele mesmo, como seu próprio próximo em relação ao seu desejo.” (97)

+ 10 MANDAMENTOS + EPÍSTOLA AOS ROMANOS (102-107)

- SÍMBOLO – “… Diabolos. Simbólico …” (117)

+ EVANGELHO: – FREUD E PAULO – “… Freud diz a mesma coisa que São Paulo [...] e por trás de São Paulo, vocês tem o ensinamento de Cristo quando … …. … ” (121-123)

- O BEM E O MAL – “Freud lida … diretamente com as potências que emanam do conhecimento do bem e do mal.” (133)

- IDEOLOGIA BÍBLICA E EPISTEMOLOGIA – “… a ciência moderna, nascida de Galileu, não se pôde desenvolver senão a partir da ideologia bíblica, judaica, e não da filosofia antiga …” (153)

- A MORTE DE DEUS – O PAI MORTO – “É claro          que Deus está morto. É o que Freud expressa de ponta a ponta em seu mito – já que Deus sai do fato de que o Pai está morto, isso certamente quer dizer que nos demos conta de que Deus está morto, e é por isso que Freud cogita tão firmemente sobre isso. Porém, igualmente, já que é o Pai morto a quem Deus originalmente serve, ele também estava morto desde sempre. A questão do Criador em Freud é, portanto, saber a que deve ser apenso, em nossos dias, aquilo que dessa ordem continua se exercendo.” (159)

+ MOISÉS E O MONOTEÍSMO – O NOME-DO-PAI – “Quando lerem essa obra espantosa que é Moisés e o monoteísmo, verão que Freud não pode deixar de mostrar a duplicidade de sua referência essencial, ou seja, o Nome-do-Pai em sua função significante. [...] (177-178)

+ A MORTE DE DEUS E O AMOR AO PRÓXIMO (205-232)

- SOU O QUE SOU – “… Eu sou o que sou, isto é, um Deus que se apresenta essencialmente como escondido.” (213)

- MOISÉS E A COISA – “… a sarça ardente era a Coisa de Moisés …” (213)

- ASSASSINATO DO PAI/GRANDE HOMEM – RECALQUE – EFICÁCIA – REDENÇÃO CRISTÃ – “… Freud só pode encontrar a via motivada para a mensagem de Moisés racionalista na medida em que essa mensagem transmitiu-se na obscuridade, isto é, que essa mensagem encontrou-se vinculada, no recalque, ao assassinato do Grande Homem. E é precisamente por meio disso que pode ser veiculada, conservada num estado de eficácia que podemos medir na história. É tão perto da tradição cristã que é impressionante – é na medida em que o assassinato primordial do Grande Homem vem emergir num segundo assassinato, o do Cristo, que, de alguma forma o traduz e o traz à luz, que a mensagem monoteísta se termina. É na medida em que a maldição secreta do assassinato do Grande Homem cujo poder advém unicamente do fato de ressoar sobre o fundo do assassinato inaugural da humanidade, o do pai primitivo, é na medida em que este, enfim, vem à luz que se efetiva o que cabe bem chamar, pois está no texto de Freud, de redenção cristã.” (214)

- HISTÓRIA DAS RELIGIÕES – IMAGINÁRIO – “A história das religiões … tipificação do imaginário …” (214)

- RELIGIÕES ORIENTAIS – “Com respeito às outras religiões … orientais … culto ao Grande Homem … no meio do caminho … abortadas, aquém do assassinato primitivo desse Grande Homem.” (215)

- TOTEM E TABU – HORDA PRIMEVA – MITO – MODERNIDADE – “… o importante de Totem e Tabu é de ele ser um mito e, como se disse, talvez o único mito de que a época moderna tenha sido capaz. E foi Freud quem o inventou.” (216)

- TRANSGRESSÃO/PECADO – LEI – GOZO – PAULO – “É nesse ponto que chegamos à fórmula de que uma trangressão é necessária para aceder a esse gozo, e que – para reencontrarmos são Paulo – é muito precisamente para isso que serve a Lei. A transgressão no sentido do gozo só se efetiva apoiando-se no princípio contrário, sob as formas da Lei.” (217)

- ORIGEM DA LEI – ASSASSINATO PRIMEVO – AMOR AO PAI – RESSURREIÇÃO – “Se o mito da origem da Lei se encarna no assassinato do pai, é de lá que são tirados todos esses protótipos que sucessivamente se chamam animal totem, depois tal deus, mais ou menos poderoso e ciumento, e no fim das contas o deus único, Deus, o Pai. O mito do assassinato do pai é justamente o mito de um tempo para o qual Deus está morto [...] Mas se Deus está morto para nós, é porque o está desde sempre, e é justamente isso que nos diz Freud. Ele nunca foi o pai a não ser na mitologia do filho, isto é, na do mandamento que ordena amá-lo, ele o pai, e no drama da paixão que nos mostra que há uma ressurreição para além da morte. Quer dizer que o homem que encarnou a morte de Deus continua existindo. Continua existindo como esse mandamento que ordena amar a Deus.” (217-218)

- CRISTIANISMO – ATEÍSMO – “… há uma mensagem atéia do próprio cristianismo. É por meio do cristianismo, diz Hegel, que se completa a destruição dos deuses.” (218)

- SPINOZA – “… amor intellectualis Dei.” (220)

- VERDADE – SINTOMA – REDENÇÃO – FILHO DO HOMEM – “… se esse Deus sintoma, esse Deus-totem tanto quanto tabu, merece que nos detenhamos na pretensão de fazer-se dele um mito é na medida em que ele foi o veículo do Deus de verdade. É por seu intermédio que a verdade sobre Deus pôde vir à luz, isto é, que Deus foi realmente morto pelos homens, e que, a coisa tendo sido reproduzida, o assassinato primitivo foi redimido. A verdade encontrou sua via por meio daquele que a Escritura chama certamente de o Verbo, mas também o Filho do Homem, confessando assim a natureza humana do Pai.” (221)

- NOME-DO-PAI – SUBLIMAÇÃO – “Freud não negligencia o Nome-do-Pai. Pelo contrário, fala dele extremamente bem, em Moisés e o Monoteísmo [...] dizendo que na história humana o reconhecimento da função do Pai é uma sublimação, essencial à abertura de uma espiritualidade que representa como tal uma novidade, um passo na apreensão da realidade como tal.” (221)

- O PAI REAL – “Freud não negligencia, longe disso, o pai real. Para ele é desejável……….” (222)

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SEMINÁRIO 8 (1960/61) – A TRANSFERÊNCIA. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1992.

- O LÓGOS – O SAGRADO – OS DEUSES – O REAL -

“… os deuses … pertencem ao real. Os deuses, são um modo de revelação do real.” (51)

“É por essa razão que todo progresso filosófico tende, por sua própria necessidade, a eliminá-los. É por isso  também que a revelação cristã, como muito bem observou Hegel, está a caminho de sua eliminação – ela está um pouquinho mais adiante, vai um bocadinho mais profundamente, na via do politeísmo ao ateísmo. Relativamente à noção do deus como summum de revelação, de lumen, como clarão e aparição – é um coisa fundamental – reais, o mecanismo da revelação cristã se encontra, de maneira incontestável, no caminho que leva a sua redução e, em última instância, à sua abolição. Com efeito, ele tende a deslocar o deus desta revelação, bem como o dogma, em direção ao Verbo, o lógos. Em outras palavras, está num caminho paralelo ao que segue o filósofo, na medida em que sua fatalidade é negar os deuses.” (51)

“Essas revelações, que o homem encontrava até então no real – no real onde aquilo que se revela é, aliás real – pelo real que o desloca, ele vai buscá-las no logos, isto é, no nível de uma articulação significante.” (51) – 30/11/1960

“os deuses … são uma manifestação do real. Ora, toda passagem dessa manifestação para uma ordem simbólica nos distancia da revelação do real.” (58) 07/12/1960

- TRINDADE – PARENTESCO – “O deus cristão, que é este meio-caminho de que lhes falei entre teogonia e ateísmo do ponto de vista de sua organização interna, esse deus trino, um em três, o que é ele? – senão a articulação radical do parentesco como tal, no que este tem de mais irredutivelmente, misteriosamente simbólico. A relação mais oculta, e, como diz Freud, menos natural, a mais puramente simbólica, é a relação do pai com o filho. E o terceiro termo permanece ali presente sob o nome de amor.” (58-59)

- MITO – REAL – “Todo mito se relaciona com o inexplicável do real, e é sempre inexplicável que o que quer que seja responda ao desejo.” (59)

- PULSÃO DE MORTE – SÍMBOLO COMO MORTE E ETERNIZAÇÃO DA COISA – “A contradição oculta, o detalhe a se compreender é que o homem aspira a destruir-se na própria medida em que se eterniza” (103) 11/01/61

- MENSAGEM DOS DEUSES – ANIMISMO – “Os deuses existem, sua existência não é absolutamente contestada aqui. O demoníaco, o demônio, o daïmonion … é aquilo por que os deuses dão a escutar suas mensagens aos mortais, quer estejam adormecidos ou acordados.” (126)

“Digamos simplesmente que o mito situa a ordem do demoníaco no ponto em que nossa psicologia fala do mundo do animismo.” (126)

“O que nos é dito na passagem é que esse é o mundo das mensagens que diremos enigmáticas, o que quer dizer, mas apenas para nós, mensagens onde o sujeito não reconhece a sua própria. Se a descoberta do inconsciente é essencial, é que ela nos permitiu estender o campo das mensagens que podemos autenticar no único sentido próprio deste termo, na medida em que ele está fundado no domínio do simbólico. A saber, que muitas dessas mensagens, que acreditávamos serem mensagens opacas do real, são apenas as nossas próprias. É isso que é conquistado por nós ao mundo dos deuses.” (127) 18/01/61

- AGALMA – TRINDADE – “Depois do longo mal-entendido que havia sustendado a relação trinitária na divindade, do conhecedor ao conhecido, e remontando ao conhecido no conhecedor pelo conhecimento, vemos aí a abordagem dessa revelação que é a nossa, que as coisas vão do inconsciente para o sujeito que se constitui na sua dependência e remontam até este objeto núcleo que chamamos aqui de agalma.” (165) 08/02/61

- OUTRO – outro – “… o segredo mais chocante, a última mola do desejo, que sempre obriga, no amor, a dissimulá-lo um pouco: seu objetivo é a queda do Outro.” (178) 01/03/61

- LEI – MORTE – “Numa palavra, a lei, para se instaurar como lei, necessita como antecedente a morte daquele que lhe serve de suporte.” (289) 10/05/61

- TEMPOS MODERNOS… – “… uma espécie de loucura religiosa … é … onde nos situamos, nós, homens de nosso tempo, na própria medida em que essa loucura religiosa nos falta.” (294) 17/05/61

- O VERBO – “O Verbo foi para nós encarnado. Ele veio ao mundo e, contra a palavra do Evangelho, não é verdade que não o tenhamos reconhecido. Nós o reconhecemos, e vivemos das seqüências desse reconhecimento. Estamos numa das fases das conseqüências desse reconhecimento.” (295)

“O Verbo não é simplesmente para nós a lei onde nos inserimos para portar, cada um de nós, a carga da dívida que faz nosso destino. Ele abre para nós a possibilidade, a tentação de onde é possível nos maldizermos, não somente como destino particular, como vida, mas como o próprio caminho onde o Verbo nos conduz, e como encontro com a verdade, como hora da verdade. Não estamos mais, apenas, passíveis de ser culpados pela dívida simbólica. É ter a dívida ao nosso encargo que nos pode ser, no sentido mais próximo que essa palavra indica, censurado. Em suma, é a própria dívida onde tínhamos nosso lugar que nos pode ser retirada, e é ali que podemos nos sentir nós mesmos totalmente alienados. Sem dúvida o Atè antigo nos tornava culpados dessa dívida, mas ao renunciar a ela, como podemos fazer agora, somos tomados por uma infelicidade ainda maior, a de que esse destino não seja mais nada.” (295)

Em resumo, o que sabemos, por nossa experiência de todos os dias, é que a culpa que nos resta, aquela que palpamos no neurótico, deve ser paga justamente pelo seguinte, que o Deus do destino está morto..” (296)

“Tal é o que inaugura como possibilidade, diante do ser que fala, o fato de ser suporte do Verbo no momento em que lhe é pedido, quanto a este Verbo, que ele o garanta.” (296)

“O homem se tornou Refem do Verbo porque disse a si, ou também para que dissesse a si, que Deus está morto.” (296)

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SEMINÁRIO 11 (1964/65) – OS QUATRO CONCEITOS FUNDAMENTAIS DA PSICANÁLISE. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1992 2a edição.

- COMUNIDADE ANALÍTICA E IGREJA – “Não estou querendo dizer – mas isto não seria impossível – que a comunidade psicanalítica é uma Igreja. Contudo, incontestavelmente, surge a questão de saber o que nela pode mesmo fazer eco a uma prática religiosa.” (12)

- DESEJO DE FREUD – MORTE DE DEUS – CASTRAÇÃO – “… encontrar nos mitos da morte do pai a regulação de seu desejo? Antes de mais nada, ele [Freud] se reecontra com Nietzsche para enunciar, no mito dele, que Deus está morto. E é talvez sobre o fundo das mesmas razões. Pois o mito de que Deus está morto – do que eu estou, de minha parte, bem menos convencido, como mito entendam bem, do que a maioria dos intelectuais contemporâneos, o que não é de modo algum uma declaração de teísmo nem de fé na ressurreição – este mito talvez seja apenas o abrigo que se achou contra a ameaça de castração.” (31-32)

- EXPERIÊNCIA OCEÂNICA – ILUSÃO – FENDA – “Não é um traço pessoal de Freud esse repúdio, para o campo da sentimentalidade religiosa, do que ele designou como aspiração oceânica. Nossa experiência está aí para reduzi-la, essa aspiração, a uma fantasia, para nos garantir em outra parte bases firmes, e remetê-la para o lugar do que Freud chamava, a propósito da religião, de ilusão.”

“O que é ôntico, na função do inconsciente, é a fenda …” (35)

- NOME DO PAI – PECADO – “O pai, o Nome-do-Pai, sustenta a estrutura do desejo com a da lei – mas a herança do pai é aquilo que nos designa Kierkegaard, é seu pecado.” (38)

- DEUSES – REAL – “… há algum tempo sabem que emprego de bom grado a fórmula – os deuses são do campo do real.” (48)

- DEUS É INCONSCIENTE – “Pois a verdadeira fórmula do ateismo não é que Deus está morto – mesmo fundando a origem da função do pai em seu assassínio, Freud protege o pai – a verdadeira fórmula do ateísmo é que Deus é inconsciente.” (60)

- DEUS – NOMES-DO-PAI – IMAGEM – PACTO – ANTROPOMORFISMO – “Deus é criador, aliás, por criar certas imagens – a Gênese nos indica isto com o Zelem Elohim. E o próprio pensamento iconoclasta ainda salva isto, que há um deus que não gosta disso. É mesmo o único. [...] coração de um dos elementos mais essenciais do domínio dos Nomes-do-Pai – é que um certo pacto pode ser estabelecido mais além de qualquer imagem. Aí, onde estamos, a imagem continua sendo o turgimão da divindade – se Iaveh proíbe aos judeus fazerem ídolos, é porque os ídolos agradam aos outros deuses. Num certo registro, não é Deus que não é antropomorfo, é o homem que é solicitado a não sê-lo.” (110)

- OLHO/OLHAR – BÍBLIA – “O olho pode ser profilático, mas em todo caso não é benéfico, ele é maléfico. Na Bíblia, e mesmo no Novo Testamento, não há bom olho; maus, existem em todo canto.” (115)

- RELIGIÃO – MAGIA – SACRAMENTO – PACTO – ESQUECIMENTO – “Perguntem aos fiéis, se não aos sacerdotes, o que é que diferencia a confirmação do batismo? – pois, enfim é um sacramento, se isso opera, opera sobre algo. Onde isso lava pecados, onde isso remove um certo pacto – ponho aí um ponto de interrogação, será um pacto?, será outra coisa? o que é que passa por essa dimensão? – em todas as respostas que nos derem, encontraremos sempre essa marca a ser distinguida, pela qual se evoca o mais-além da religião, operatório e mágico. Não podemos evocar essa dimensão operatória sem nos apercebermos de que no interior da religião, e por razões perfeitamente definidas – separação, impotência de nossa razão, de nossa finitude – é isto que é marcado de esquecimento.” (251)

- COMENTANDO O HOLOCAUSTO – SACRIFÍCIO – “… a oferenda, a deuses obscuros, de um objeto de sacrifícios, é algo a que poucos sujeitos podem deixar de sucumbir, numa captura monstruosa.”

“… o sacrifício significa que, no objeto de nossos desejos, tentamos encontrar o testemunho da presença do desejo desse Outro que eu chamo aqui o Deus obscuro.” (259)

“E [ou 'É'?] o sentido eterno do sacrifício, ao qual ninguém pode resistir, a não ser que seja animado por essa fé tão difícil de sustentar, e que somente, talvez, um homem, soube formular de maneira plausível – a saber, Spinoza, com o Amor Intellectualis Dei.” (260)

O SEMINÁRIO (18) 1971 – De um Discurso que não Seria o do Semblante. Edição do Centro de Estudos Freudianos do Recife, 1995/1996.

20/01/71
“… poderíamos dizer que em seu [de Aristóteles] modo de apontar o que é a ousia, ousia, em outras palavras, o real, ele se comporta como um místico. O próprio da ousia – ele mesmo é quem o diz – é que, de forma nenhuma, ela pode ser atribuída. Ela não é dizível. O que não é dizível é precisamente o que é místico.” (23)

“Nos limites do discurso, enquanto ele se esforça em sustentar o próprio semblante, ocasionalmente, há real. É o que se chama passagem ao ato …” (29)

10/02/71
“Talvez que o Im Anfang war die Tat, como diz o outro, quando o agir estava bem no começo e talvez exatamente a mesma coisa que dizer: en arkh, no começo era o verbo. Não há talvez outro agir senão este.” (44)

10/03/71
“De início, en arkh, heim? Como eles dizem, o que não tem nada a ver com qualquer temporalidade que seja, pois ela é decorrência disso, no começo está a palavra … [...] Enfim, a palavra fez coisas. Coisas que eram seguramente cada vez menos discerníveis, porque elas eram seus efeitos.” (79)

12/05/71 – Lituraterre
“A escrita, a letra é no real, e o significante, no simbólico.” (118)

19/05/71
“… deixo à meditação de vocês e que nos mandamentos ditos do Decálogo, a mulher é assimilada aos súditos da forma seguinte: ‘Não desejarás a mulher do próximo, nem seu boi, nem seu asno’, e enfim há aí uma enumeração que é mais precisamente aquela dos meios de produção … nada mais que as leis da palavra …” (133)

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O SEMINÁRIO – LIVRO 20. Mais, Ainda. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1996. 2a Edição.

12/12/72
“Não creiam que eu hesito em me molhar. Não é de hoje que falo em São Paulo. Não é isto que me dá medo, mesmo se me comprometo com pessoas cujo estatuto e decência não são, para falar propriamente, os que freqüento. Entrementes, que os homens de um lado, as mulheres de outro, tenha sido a conseqüência da Mensagem, está aí algo que no curso das eras teve algumas repercussões. Isto não impediu ao mundo de se reproduzir à medida de vocês. A besteira vai bem, de qualquer modo.” (22)

+ os 4 discursos: (27) 19/12/72
Senhor:           Universidade  Histérica         Analista                      Lugares:                     

S1 -> S2          S2 -> a                        $ -> S1            a    ->  $                      Agente   ->  outro

$  <-  a            S1 <- $            a <- S2                        S2 <- S1                     verdade  <-  produção

S1- significante mestre  / S2 – o saber / $- o sujeito / a – o mais-gozar

16/01/73
“O Outro, o Outro como lugar da verdade, é o único lugar, embora irredutível, que podemos dar ao termo ser divino, Deus, para chamá-lo daquele nome, para chamá-lo por seu nome. Deus é propriamente o lugar onde, se vocês me permitem o jogo, se produz o deus-ser – o deuzer – o dizer. Por um nada, o dizer faz Deus ser. E enquanto se disser alguma coisa, a hipótese Deus estará aí.”

“É o isso que faz com que, em suma, não possam existir verdadeiros ateus senão teólogos, quer dizer, aqueles que, de Deus, eles falam.”

“Nenhum outro meio de sê-lo, senão escondendo-se a cabeça com os braços em nome de não sei que cagaço, como se alguma vez esse Deus tivesse efetivamente manifestado qualquer presença. Por outro lado, é impossível dizer o que quer que seja sem antes fazê-Lo subsistir na forma do Outro.” (62)

20/02/73
“Enfim, naturalmente que se acabou, no cristianismo, por inventar-se um Deus tal que é ele quem goza!” (102)

[os místicos] “… entrevêem, eles experimentam a idéia de que deve haver um gozo que esteja mais além. É isto que chamamos os místicos.” (102)

[Sta Tereza]: “E do que é que ela goza? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas não sabem nada dele.” (103)

“Essas jaculações místicas, não é lorota nem só falação, é em suma o que se pode ler de melhor … [...] Com o que, naturalmente, vocês vão ficar todos convencidos de que eu creio em Deus. Eu creio no gozo da mulher, no que ele é a mais …” (103)

“Esse gozo que se experimenta e do qual não se sabe nada, não é ele o que nos coloca na via da ex-sistência? E por que não interpretar uma face do Outro, a face de Deus, como suportada pelo gozo feminino?” (103)

13/03/73
“… certamente que se revelará que é no lugar, opaco, do gozo do Outro, desse Outro no que ele poderia ser, se ela existisse, a mulher, que está situado esse Ser supremo, manifestamente mítico em Aristóteles, essa esfera imóvel de onde procedem todos os movimentos …” (111)

“É na medida em que seu gozo é radicalmente Outro que a mulher tem mais relação com Deus do que tudo o que se pôde dizer na especulação antiga, ao se seguir a via do que só se articula manifestamente como o bem do homem.” (111)

“O fim do nosso ensino, no que ele persegue o que se pode dizer e enunciar do discurso analítico, é dissociar o a e o A, reduzindo o primeiro a que é do imaginário, e o outro, ao que é do simbólico. Que o simbólico seja o suporte do que foi feito Deus, está fora de dúvida. Que o imaginário se baseia no reflexo do sememlhante ao semelhante, é o que é certo.” (111)

“A é barrado por nós, é certo. Isto não quer dizer que basta barrá-lo para que nada mais dele exista. Se com esse S(A/) eu não designo outra coisa senão o gozo da mulher, é certamente porque é ali que eu aponto que Deus ainda não fez sua retirada.” (112-113)

20/03/73
“Explicam para nós a infelicidade de Cristo por uma idéia de salvar os homens, eu acho que se tratava mais era de salvar a Deus, dando-se de novo um pouco de presença, de atualidade a esse ódio de Deus a respeito do qual nós somos, e por justa causa, mais freqüentemente moles.” (133)

08/05/73
“O barroco é, no começo, a historieta, a historinha do Cristo. Quero dizer, o que conta a história de um homem. Não se choquem, foi ele mesmo que se designou como o Filho do Homem. O que contam quatro textos ditos evangélicos, por serem não tanto boa-nova quanto bons anunciadores para sua sorte de nova. Pode-se entender também assim, e assim me parece mais apropriado. Esses aí escrevem de tal maneira que não há um só fato que não possa ser contestado – Deus sabe que naturalmente meteram os cornos no pano vermelho. Esses textos não vão, por isso, menos ao coração da verdade, a verdade como tal, mesmo inclusive o fato de eu enunciar que não se pode dizê-la senão pela metade.” (146)

“É uma simples indicação. Essa espantosa realização implicaria que eu tomasse os textos e lhes desse aulas sobre os Evangelhos. Vocês vêem aonde é que isso nos levaria.” (146)

“Isto para lhes mostrar que eles não se aproximam bem de perto senão à luz das categorias que tentei destacar da prática analítica, nominalmente o Simbólico, o Imaginário e o Real.” (146)

“Neste gênero, os Evangelhos, não se pode dizer melhor. Não se pode dizer melhor da verdade. É daí que resulta que eles sejam evangelhos. Não se pode mesmo fazer funcionar melhor a dimensão da verdade, quer dizer, melhor enfiar a realidade na fantasia.” (146)

“Que ele seja a verdadeira religião, como pretende, não é uma pretensão excessiva, e isto tanto mais que ao examinar o verdadeiro de perto, é o que se pode dizer de pior.” (147)

“É verdade que a historieta do Cristo se apresenta não como o empreendimento de salvar os homens, mas como o de salvar a Deus. É preciso reconhecer que, para aquele que se encarregou desse empreendimento, o Cristo nominalmente, ele pagou o preço, é o menos que se pode dizer.” (147)

“O resultado, temos mesmo que nos espantar de ele parecer satisfazer. Que Deus seja três indissoluvelmente, de qualquer modo, é de natureza a nos fazer prejulgar que a conta um-dois-três preexiste a ele. Das duas uma – ou Ele só se leva em conta só-depois da revelação cristina, e é seu ser que fica golpeado com isto – ou, se o três lhe é anterior, é sua unidade que fica atingida. Donde se torna concebível que a salvação de Deus seja precária, e entregue em suma à boa vontade dos cristãos.” (147)

“Freud felizmente nos deu uma interpretação necessária – que não pára de se escrever, como defini o necessário – do assassínio do filho, como fundador da religião da graça. Ele não disse exatamente assim, mas marcou bem que esse assassínio era um modo de denegação que constitui uma forma possível da confissão da verdade.” (148)

“É assim que Freud salva de novo o Pai. No que ele emula Jesus-cristo. Modestamente, sem dúvida. Modestamente, sem dúvida. Ele não se põe inteiramente nisto. Mas contribui com sua partezinha, como o que ele é, isto é, um bom judeu não inteiramente por dentro.” (148)

“Vou lhes colocar uma questão – que importância pode haver, na doutrina cristã, o fato de Cristo ter uma alma? Essa doutrina não fala senão da encarnação de Deus num corpo, e supõe mesmo que a paixão sofrida por essa pessoa tenha constituído o gozo de uma outra. Mas não há nada que falte ali, notadamente nenhuma alma.” (154)

“Cristo, mesmo ressuscitado, vale por seu corpo, e seu corpo é o turgimão pelo qual a comunicação com sua presença é incorporação – pulsão oral – com a qual a esposa de Cristo, Igreja como a chamam, se contenta muito bem, não tendo nada a esperar de uma cópula.” (154)

“… é como os psicanalistas – os cristãos tem horror do que lhes foi revelado. E eles tem mesmo razão.” (156)

“Para terminar com essa história de religião verdadeira, apontarei, enquanto é tempo, que Deus só se manifesta por escrituras que são ditas santas. Elas são santas no que? No que não cessam de repetir o fracasso – leiam Salomão, é o mestre dos mestres, é o metro dos mestre, um tipo do meu gênero – o fracasso das tentativas de uma sabedoria de que o ser seria o testemunho.” (156)

15/05/73
“… um toro enroscado, é a imagem, tão seca quanto posso dá-la a vocês, do que evoquei outro dia como trindade, uma e três num só jato.” (167)

“… o nó borromeano é a melhor metáfora do seguinte: que nós só procedemos do Um.” (174)

“O real, eu diria, é o mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente.” (178)

__________________________________________________

SEMINÁRIO 22 (1974/75) – RSI (pirata)

“O sentido é aquilo porque alguma coisa responde, é diferente do Simbólico, e esta alguma coisa, não há meio de suportá-la senão a partir do Imaginário.” (RSI 4)

“… o saber suposto pelo Real, o saber de Deus.” (RSI 4)

“… na sequência dos números, números inteiros, um e dois são destacados, e alguma coisa começa no três …” (RSI 6)

“… o nó borromeano, enquanto se sustenta pelo número três, é do registro do imaginário. E o é naquilo que o Imaginário se enraíza a partir das três dimensões do espaço …” (RSI 6)

“Nào há imaginário que não suponha uma substância.” (RSI 9)

“O que Freud nos tráz, concernindo ao que diz respeito ao Outro, é justamente isso, que só há outro quando se o diz. Mas é absolutamente impossível dizer inteiramente esse Todo-outro, há uma ‘Urverdrängt’, um inconsciente irredutível e este, de ser dito, é, por assim dizer, o que não só se define como impossível mas introduz como tal a categoria do Impossível.”

“Que a religião é verdadeira, foi o que eu disse em outra ocasião. Ela é certamente mais verdadeira que a neurose, naquilo em que ela recalca o fato de não ser verdade que Deus seja, coisa em que, se posso dizer, Voltaire acreditava firmemente. Ela diz que ele ex-siste, que ele é a ex-sistência por excelência, ou seja, em suma, ele é o recalcamento em pessoa, ele é, inclusive, a pessoa suposta ao recalcamento. E é nisso que ela é verdadeira. Deus nada mais é que o que faz com que, a partir da linguagem, não se possa estabelecer relação entre sexuados [...] Deus, comporta o conjunto dos efeitos de linguagem, incluindo aí os efeitos psicanalíticos, o que não é dizer pouco!” (RSI 12)

“… Freud não crê em Deus. [...] A legenferação [...] Não somente ela perpetua a religião mas a consagra também como neurose ideal. Aliás, foi exatamente o que ele disse, ligando-a à neurose obsessiva, que é a neurose ideal, que, propriamente falando, merece ser chamada assim.” (12)

14/01/75
“… o existo … o existere. Entretando, é curioso que esse termo tenha emergido, e emergido num campo que chamaremos filosófico-religioso. É totalmente na medida em que a religião aspirava – a hu-manta religiosa – em que a religião aspirava a filosofia que vimos sair essa palavra existência, que parece no entanto ter tido, é o caso de se dizer, muitas razões de ser.” (17)

21/01/75
“Um pai só tem direito ao respeito, senão ao amor, se o-dito amor, o-dito respeito, estiver, vocês não vão acreditar em suas orelhas, père-vertidamente orientado, isto é, feito de uma mulher, objeto pequeno a que causa seu desejo, mas o que essa mulher em pequeno acolhe, se posso me exprimir assim, nada tem a ver na questão. Do que ela se ocupa, são outros objetos pequeno a que são as crianças junto a quem o pai então intervém, excepcionalmente, no bom caso, para manter na repressão, dentro do justo semi-Deus, se me permitem, a versão que lhe é própria de sua pai-versão.” (23)

11/02/75
“… Freud instaura com o seu Nome do Pai, idêntico à realidade psíquica, ao que ele chama realidade psíquica, declaradamente a realidade religiosa, pois é exatamente a mesma coisa …” (31)

18/02/75
“Sem dúvida, é por um procedimento que é aquele, aliás, e que supõe como fundamental a ordem explorada a partir de minha experiência, propriamente dita, analítica, que eu disse me ter conduzido a essa trindade  infernal, chamemo-la pelo nome, essa trindade infernal do Simbólico, do Imaginário e do Real. [...] E é sem dúvida aí que toma ilustração, afinal, o que chamei verdade, a verdade de uma certa religião, para a qual chamei a atenção não ser inteiramente por acaso conseguir ela uma noção divina que fosse de uma trindade, e isto contrariamente à tradição em que ela própria se conecta [...] . [...] o desejo do homem [...] é o Inferno, o Inferno, muito precisamente nisto que é o Inferno que lhe falta, e com essa conseqüência de ser a que ele aspira, e temos testemunho disso, o testemunho da neurose, que é muito exatamente isto, que o neurótico é alguém que não chega ao que para ele é a miragem onde ele encontraria satisfação, é, a saber, uma perversão, uma neurose é uma perversão falha.”  (35)

11/03/75
“… a Bíblia [...] negócio que nela é chamado Pai, o primeiro tempo dessa imaginação humana que é Deus, foi consagrado a dar um nome, meu Deus! a algo que não é indiferente, um nome a cada um dos animais.” (44)

“Como, então, o Simbólico, como isso de que fiz simplesmente observar ter seu peso na prática analítica, quer dizer, isto que no comum se chama de blá-blá-blá, ou ainda, Verbo; tudo isso se parece, como causa isso o sentido? Eis a questão, que só coloco tendo a resposta: estará na idéia do Inconsciente? Será isto o que digo desde o discurso de Roma? Interrogação. Não está na idéia do Inconsciente. Está na idéia de que o Inconsciente ex-siste, escrito como escrevo, isto é, que ele condiciona o Real, o Real desse ser que designo pelo falasser. Ele nomeia as coisas, como há pouco eu o evocava à propósito daquela brincadeira primeira da Bíblia no Paraíso Terrestre. Ele nomeia as coisas para esse falasser, quer dizer que esse ser que é, ele próprio, uma espécie animal mas que se diferencia singularmente, ele é animal apenas nisto – isso nada quer dizer, caracterizar o animal pela sua maneira de se reproduzir [...]+” (45)

“Sonhavam haver pelo menos um Deus que fala e que, sobretudo, não fala sem que isso tenha efeito, que causa. O incrível é essa confusão que quer que se acoste nesse Deus uns sub-falantes. Anjos, é como chamam, comentaristas, ora!” (46)

“Não insisto e prossigo no que é do Nome do Pai, para trazê-lo ao seu protótipo e dizer que Deus, na elaboração que damos a esse Simbólico, a esse Imaginário e a esse Real, Deus é a mulher tornada toda. Eu lhes disse: ela é não-toda. No caso de ex-sistir por um discurso que não seja só de aparência teríamos esse <existe x> que lhes passei antes, <existe x falo x>, o Deus da castração. É uma aspiração que vem do Homem, com um H maiúsculo, umas aspiração de que ex-sistam mulheres que ordenem a castração. O problema é que não há, segundo o que escrevi numa primeira formulação, <existe x falo x>, correlata da não toda, <não-todo x falo x>, a mulher não ex-siste, eu o disse [...]” (48)

De um Deus que não seria o do semblante

De um Deus que não seria o do semblante. A religião, de Freud a Lacan: ressonâncias

Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em 2001, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciências da Religião, sob a orientação do Prof. Dr. Eduardo Rodrigues da Cruz. Compuseram a banca o Prof. Dr. Luiz Felipe Pondé, e a Prof. Dra. Cecília Ferreti, como suplente, o Prof. Dr. Fr. Gilberto Gorgulho.

Abaixo apenas o resumo, o sumário e a introdução. Você pode fazer download da dissertação completa (180 pags.) em formato PDF aqui (em breve).


“I stopped outside a church house, where the citizens like to sit. They say they want the kingdom, but they don’t want God in it”

Bono, U2. The Wanderer. Zooropa, 1993.

Dedico esse trabalho a todos os filhos e filhas de Adão e seus mistérios, que nos intrigam e que nos fazem sondá-los, mesmo que de antemão saibamos ser tudo vaidade, e correr atrás do vento…


Resumo

A presente dissertação pretende lançar luz sobre a discussão que se passa entre a psicanálise e a religião. Trata-se de Freud, Lacan e da tradição bíblica. No primeiro capítulo recordamos a análise da religião feita por Freud, e fazemos um levantamento da presença do judaísmo em seu pensamento.

No segundo capítulo, fazemos uma introdução ao pensamento de Lacan, no que se ancora em Freud e no que inova o discurso psicanalítico. A partir daí, começamos também a apontar ressonâncias entre a psicanálise e a religião, neste ponto, no caso entre a formação pessoal de Lacan e as possíveis incidências dessa formação em seu pensamento.

No terceiro capítulo, aprofundamos um pouco a análise da religião trabalhando a partir do pensamento de Lacan. Revisamos sua posição em relação ao mito freudiano da horda primeva, depois construímos algumas breves análises de três momentos da tradição bíblica: a criação, o pronunciamento do Decálogo, e a encarnação do Verbo. Depois levantamos o tema da concepção trinitária encarnada no nó borromeano de Lacan em relação ao dogma cristão da Trindade. Fazemos ainda, uma pequena revisão do problema da mística, situada por Lacan como lugar onde Deus ainda não fez sua retirada. Tentamos neste capítulo mostrar a operacionalidade dos conceitos psicanalíticos no campo da tradição bíblica, e sua familiaridade com o objeto em questão. Vemos aí que a psicanálise produz uma espécie de avesso do discurso bíblico, sustentando-se nas mesmas estruturas.

Por fim, tentamos fazer um equacionamento da presença da tradição bíblica como marca e influência no discurso psicanalítico, onde parece podermos concluir que se Freud judaíza um pouco a psicanálise, Lacan a cristianiza. Isso colocará a questão de uma secularização da religião no discurso psicanalítico, que nos conduzirá a um impasse quanto à posição epistemológica da psicanálise, que parecerá se situar em algum lugar entre a ciência e a religião, donde novas questões podem emergir.

Abstract

The present dissertation pretends to bring some light to the discussion that goes on between psychoanalysis and religion. It’s is about Freud, Lacan and the biblical tradition. In the first chapter we recall the analysis of religion made by Freud, and do a survey of the presence of judaism in his thought.

In the second chapter, we do an introduction to Lacan’s thought, in that which it is grounded on Freud’s and in that which it inovates the psychoanalytical discourse. From there, we start also to point to the ressonances between psychoanalysis and religion, in this moment, that is between the personal formation of Lacan and the possible incisions of this formation in his thought.

In the third chapter, we go a little deeper in the analysis of religion working from Lacan’s thought. We review Lacan’s position in relation to the freudian mith of the primal hord, and we then construct some brief analysis of three moments of the biblical tradition: creation, the pronouncing of the Decalog, and the incarnation of the Word. Then we raise the issue of the trinitarian conception incarnated in Lacan’s borromean knot in relation to the christian dogma of the Trinity. We also do a small revision of the problem of mysticism, situated by Lacan as where God has not yet made It’s withdrawal. We try in this chapter to show the operacionality of the psychoanalytical concepts in the field of the biblical tradition, and it’s familiarity with the object in quest. We see there that psychoanalysis produces a kind of negative, envers, of the biblical discourse, sustaining itself on the same structures.

In the end, we try to do a equationing of the presence of the biblical tradition as marks, and it’s influence in the psychoanalytical discourse, where it seems that we can conclude that if Freud makes psychoanalysis a bit jewish, Lacan makes it christian. This will put the question of a secularisation of religion in the psychoanalytical discourse, and that will lead us to an impass about the epistemological position of psychoanalysis, wich will seem to be situated somewhere between science and religion, from where new questions can raise up.


Sumário

Agradecimentos
Resumo
Abstract

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO 1 – Freud, a psicanálise e o judaísmo;

1.1. A análise freudiana da religião; 1.2. Do que há de judaico na psicanálise

CAPÍTULO 2 – A trajetória teórica de Lacan
2.1. Lacan;

2.2. O imaginario; 2.3. O simbólico; 2.4. O real; 2.5. O objeto a, os 4 discursos, sexuação, e o nó borromeano

CAPÍTULO 3 – Fragmentos de um caso de religião;

3.1. O monoateísmo psicanalítico; 3.2. Construções em análise;

3.2.1. No jardim; 3.2.2. No Sinai; 3.2.3. De um Lógos ao logos; 3.2.4. A Trindade; 3.2.5. O gozo feminino, o real e a mística; 3.2.6. Deus, a verdade e o inconsciente;

3.3. Considerações

CONCLUSÃO

I. Perspectivas: psicanálise, ciência e religião
II. Palavras finais

Bibliografia


Introdução

De um Deus que não seria o do Semblante. Com este título fazemos ecoar o título dado ao seminário de 1968 e 69 onde Lacan se esforça em encontrar os rastros de um discurso que não faria semblante, um discurso que talvez pudéssemos conceber como pura letra, encravada na rocha do real. Matema.

Muito cedo aprende-se nas faculdades de psicologia que esta última, em sua versão moderna, teve início em seu destacamento do campo da filosofia por volta de meados do século dezenove. Tratava-se de um fervilhar de escolas heterogêneas, em todos os cantos do mundo, que partiam de premissas diferentes, que usavam métodos diferentes e que concluíam diversamente não somente quanto à natureza de seu objeto, mas inclusive na própria demarcação de um tal objeto.

Dentre as várias escolas, uma delas, que nasceu em Viena na virada do penúltimo século sob a assinatura de um judeu chamado Sigmund Freud e batizada com o pomposo nome de psicanálise, é de especial interesse, constituindo metade do material do tema da presente dissertação.

Ao contrário, por exemplo, do behaviorismo radical de Skinner – preocupado com a assepsia própria ao método científico clássico a ponto de abrir mão de conceitos tão arraigados na história do pensamento ocidental, como consciência, alma, mente, etc. – a psicanálise surge como um método de investigação da subjetividade e de tratamento dos distúrbios psiconeuróticos que encontra os limites de sua elaboração teórica em narrativas mitológicas, freudianas ou não.

Curioso desfecho, visto que ninguém pode negar a inspiração propriamente científica e experimental que percorre todo o pensamento de Freud. O que inevitavelmente nos remete aos tempos anteriores ao destacamento acima referido, tempos em que o estudo do objeto do que hoje chamamos psicologias era tarefa empreendida por filósofos, comprometidos ou não com tradições religiosas e, mais ainda, em se tratando de religião – campo que fornecerá a outra metade do material desta dissertação – dos tempos em que religião e a psicologia caminhavam, por assim dizer, de mãos dadas, já que esta última estava contida na primeira, sendo dela um capítulo dos mais importantes.

Porém, a discussão acerca da relação entre a psicanálise e a religião é uma discussão antiga e muitas vezes afetada, que não raro traz a tona todas aquelas funções de desconhecimento que a própria psicanálise tão bem ilustra em toda sua análise da dinâmica do imaginário em relação ao sujeito. Uma pergunta que devemos fazer de partida: há alguma herança do que era formulado nesse tempo e nesse contexto na produção científica de Freud? Isso já foi respondido por muitos e parece haver um certo consenso de que sim, de que há uma herança; porém, sua extensão e importância varia conforme o caso analisado.

Freud era um judeu sem Deus, como ele mesmo gostava de se expressar. Se dizia incrédulo e pouco dado às superstições ou a qualquer crença num além que pudesse ter qualquer influência no mundo. O que não muda o fato de ser ele um sujeito profundamente imerso na cultura e na Weltanschauung judaica.

Mas, do que se trata no que segue? Falemos dos termos do subtítulo: A religião de Freud a Lacan, análises e ressonâncias. Ora, se se trata da religião em Freud e Lacan, não poderíamos ter em mente outra coisa senão aquilo que da religião nos diz Freud e Lacan. O que faz com que o que pretendemos fazer cobrir nos fenômenos com o termo religião se reduza, a princípio, à tradição bíblica, ao judaísmo e ao cristianismo, pois predominam nas análises em questão.

Como se pode calcular, essas duas tradições somam aproximadamente 5500[1] anos de pensamento, reflexão e experiência… ou seja, acúmulo de significantes sobre os quais deveríamos nos debruçar como totalidade do material empírico que se articula em torno dessas duas insígnias: judaísmo e cristianismo. Não, não temos e nem temos como ter em questão toda essa totalidade, mas como já frisamos, tão somente aquilo que da religião está no texto, tanto de Freud a princípio, quanto no de Lacan – o que se verificará como o essencial, pelo menos para os fins psicanalíticos.

Mas o limite que agora nos impomos não deverá nos impedir de darmos algumas extrapoladas e, servindo-nos do instrumento de análise psicológica em questão, fazermos algumas pequenas “construções” de nossa própria lavra – o que não nos permitirá refugiarmo-nos em uma nota de rodapé. Sabemos do problema epistemológico que isso implica e acreditamos também que, ao longo de nosso texto, poderemos inclusive ensaiar algumas formulações sobre o porque de isso ser, afinal, um problema, o que nos abrirá algumas perspectivas novas quando nos aproximarmos de uma conclusão. Deve-se ter em mente que nossas construções não são fins em si mesmos, servindo-nos apenas como material ilustrativo para os fios dos argumentos principais.

Nosso intuito é o de seguir os trilhos e pistas que, acreditamos, nos levarão a um porto seguro a partir de onde poder-se-ia formular com maior precisão os termos da discussão. O que quer dizer que temos um alvo, um ponto de mira, uma escalada a ser feita, e nesse percurso, cumprirá apreciar a paisagem ao redor, à esquerda e à direita, pois só ela nos permitirá limpar o terreno onde o debate se desenrola.

Falando diretamente: o que sobra do Deus da tradição bíblica depois que lhe é tirado o semblante? Para responder a isso, será necessário rever a análise da religião feita por Freud e retomada por Lacan. Temos aí uma primeira questão.

Uma outra e segunda questão surge a partir de uma constatação: desde que se pode sustentar que há na psicanálise marcas, traços, ou ainda ressonâncias da tradição de seu inventor, isto é, do judaísmo, poderíamos sustentar que na orientação lacaniana existam, ao mesmo estilo, marcas, traços ou ainda ressonâncias da tradição cristã? Vê-se assim que nosso percurso se desdobra em duas faces. De um lado, a psicanálise analisa a religião, e de outro, adquire dela algo de sua forma. Mas como desenvolveremos essas questões?

No primeiro capítulo passaremos em revista não só a análise da religião feita por Freud, como também o levantamento da influência do judaísmo em seu pensamento e em sua invenção. São pontos já bem estabelecidos na literatura e na pesquisa, e se incluímos isso em nosso texto, é tão somente para “levantar a poeira”, se nos é permitida uma metáfora.

No segundo capítulo, o leitor terá a oportunidade de fazer um breve passeio pelo pensamento de Lacan, tanto no que ele se enraíza em Freud quanto no que inova. Assim o será por duas razões:

Em primeiro lugar, partimos de um princípio: o de que não só o pensamento de Freud em geral como também – e em especial para nossos fins – sua análise da religião são, já há um bom tempo, suficientemente assimilados e digeridos, bem ou mal, no ambiente onde a presente pesquisa se desenrola, ao passo que Lacan muito lentamente penetra na academia. Isso faz com que seja assim necessário que dediquemos um espaço maior a ele. E em segundo lugar, para que possamos empreender as análises que seguirão, será necessário um certo domínio, uma certa fluidez no manejo de pelo menos alguns de seus conceitos, especialmente os que concernem mais diretamente ao tema elaborado – sem o que seria impossível desenvolver nossos argumentos.

Cumpre lembrar que o foco, o centro, o que está em questão em nosso percurso é, essencialmente, a relação complexa que há entre o pensamento de Lacan e o cristianismo. Só se trata de Freud indiretamente, ou em outros termos, do “Freud lacaniano”.

O terceiro capítulo se configura, ele sim, como o coração dessa dissertação. Lá, voltaremos aos comentários que Lacan fará à análise de Freud para verificar o que a ela ele acrescenta. Ver-se-á que é de toda a reformulação – epistemológica, cumpre dizer – do discurso psicanalítico operada por ele que será possível fazer essa retomada num outro nível que, esperamos mostrar, ao mesmo tempo, está rigorosamente nos trilhos do pensamento de Freud, assim como torna possível ver-se melhor no objeto da análise.

Deve-se dar ao nosso ver-se toda a ambigüidade que comporta. Tanto o sentido de que será possível ao psicanalista ver melhor seu objeto, quanto ver-se, enquanto portador da “peste”, nesse objeto, no que queremos dar conta das ressonâncias que se pode sentir da religião no discurso psicanalítico.

Cumpre darmos alguma explicação quanto ao uso desse termo, ressonâncias. Tomamo-lo emprestado a um autor que, volta e meia, se debruça sobre nosso tema. Trata-se aí de uma metáfora acústica: se ao fazer vibrar a corda de um violão é verificável que as outras cordas por si sós começam a também vibrar, produzindo do tom que demos a 3a e a 5a, isto é, uma harmônica em e outra em mi, é porque há aí uma ressonância que se justifica pelas relações que os elementos da escala natural ocidental das notas musicais têm entre si.

O termo nos parece favorável para ilustrar o que temos em mente, pois ao mesmo tempo em que permite estabelecer tais relações – no caso, entre o judaísmo e o cristianismo que ressoam aqui ou acolá ao se fazer vibrar esta ou aquelas cordas da psicanálise – não nos compromete com uma hipótese que exigiria o trabalho impossível de se traçar, sem lacunas ou exageros, os caminhos pelos quais a religião poderia ter chegado ao discurso psicanalítico, passando pelas formações dos autores desse discurso. Mas isso também não quer dizer que não faremos alguns apontamentos nesse sentido.

Ver-se-á que mais que Freud, Lacan dará especial atenção a alguns temas do cristianismo – comenta-los-á; poder-se-ia quase dizer que ele os viverá. Isso nos colocará mais três problemas. O primeiro diz respeito à verdade do cristianismo – verdade, no sentido psicanalítico, entenda-se bem. Veremos que os principais elementos dessa verdade se articulam em torno de um conceito a respeito do qual o próprio Lacan dizia ser sua única contribuição à psicanálise, o objeto a[2].

Na contramão, deveremos também perguntar sobre o quanto a orientação psicanalítica lacaniana seculariza o saber religioso, especialmente, no caso, o cristão. No nosso trabalho e nos poucos autores que já trataram do assunto, veremos que desponta no horizonte uma espécie de teologia lacaniana, em que o saber laicizado do cristianismo retorna a ele, instaurando nele um outro sentido.

Esperamos poder mostrar no final que de Freud a Lacan há, no tocante à religião, um balanceamento que vai, respectivamente, do judaísmo ao cristianismo, mesmo que no discurso psicanalítico o que há dessas tradições esteja reduzido a algo que não faz semblante, somente estrutura. É a estrutura do homem, em geral, o que aos olhos de um psicanalista surge como verdade na religião, e são os efeitos de sentido dessas estruturas, no princípio moldados pela religião, que escapam aos olhos de um psicanalista quando se pergunta sobre o que da psicanálise faz sentido…

Parentesco problemático e que nos abrirá uma nova e promissora perspectiva: qual o estatuto epistemológico da psicanálise? Quanto a isso, a guisa de conclusão, arrolaremos elementos para dar um pouco de corpo à hipótese de que a psicanálise se situa a meio caminho entre a ciência e a religião, o que, acreditamos, pode ter um valor singular para qualquer ciência da religião, além de poder fazer localizar melhor o lugar que o psicanalista ocupa no contexto da sociedade moderna.


1- Aproximadamente 3.500 para o judaísmo, se contarmos desde Moisés, e 2000 para o cristianismo, contando a partir de Jesus. Isso, sem levar em conta a complicação que surgiria se, além disso, fossemos considerar aquilo que do cristianismo já existe em germe no judaísmo, e aquilo que, do judaísmo, continua se exercendo no cristianismo [voltar].

2- Daqui em diante usaremos a sublinhado, para facilitar a diferenciação do uso do conceito do uso da conjunção ou do artigo definido a [voltar].


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