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O alimento da vida é a morte, epílogo: pensar e escrever

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O alimento da vida é a morte, epílogo: pensar e escrever

Às vezes penso escrevendo. Isto é, o ato de escrever interage com o ato de pensar de forma tal que tanto o texto quanto o raciocínio progridem ao mesmo tempo. Quando isso acontece, e quero tornar público o resultado do pensamento, isto é, o pensamento materializado em um texto, faço um post. Quando não quero tornar público, simplesmente enfio em algum lugar do HD.

Mas às vezes também escrevo sem pensar. E aí o resultado, o produto final, é incerto. Pode sair um texto que eu mesmo qualifico como uma grande asneira, ou pode sair um texto que eu mesmo qualifico como um dos meus melhores. Em ambos os casos, pode demorar um tempo para que eu tenha a percepção de se tratar de uma asneira ou de um bom texto. É que o pensamento vém depois, e alcançando o texto, me faz descartá-lo, por reconhecer nele uma asneira, ou então guardá-lo (e eventualmente publicá-lo, quando me parece bom como está) para futuras modificações. Há dezenas nessa espécie de limbo no meu HD.

No entanto, às vezes penso sem escrever. E aí a situação é a mais complicada. Na maioria das vezes, é quando o pensamento vai mais longe e profundo, por não ser atrasado pela lentidão dos músculos e articulações das mãos e dos dedos. Também é quando ele se articula melhor, pois não preciso ir e voltar procurando as melhores palavras, ou construindo uma estética literária. É quase pensamento puro, seguindo única e exclusivamente seus próprios ditames. No entanto, o produto final não é material.

Em outras palavras, não há um texto no final. E geralmente, depois de um lapso de tempo entregue a uma determinada linha de raciocínio, alguma coisa se modifica na minha percepção das coisas entre o início e o fim dessa linha de raciocínio. Mesmo que seja uma modificação infinitesimal, não importa. Uma modificação há. O problema nasce justamente do fato que, depois de ter pensado o que pensei e chegado onde cheguei com meu pensamento, não há mais necessidade de escrever.

Em outras palavras, escrever passa a ser uma tarefa ingrata, desnecessária e laboriosa, que não oferece nada em troca a não ser um pequeno produto material que, dependendo do contexto e das intenções de cada um, pode até ter uma certa utilidade, mas em geral, simplesmente não é necessário se considerarmos a finalidade do pensamento em si.

É até possível reconstruir o pensamento, voltar ao ponto de partida e contar a estória do passeio, como se ele estivesse acontecendo no “aqui e agora”. Reconheço que provavelmente haja quem goste de fazer isso. Eu não. Quando o faço, é única e exclusivamente para satisfazer a uma demanda externa, ou a alguma vaidade. Além disso, é pouco provável que reconstruindo a linha do pensamento, não sejamos também tentados a enveredar por toda e cada estrada lateral que se abra, o que pode tornar a escritura ainda mais laboriosa, embora por vezes ajude a ampliar e aprofundar o pensamento.

Porque faço essas considerações? Porque a alguns dias atrás iniciei o que eu acreditava que seria uma série de posts sobre um documentário chamado Zeitgeist. Pretendia escrever 4 ou 5 posts abordando os temas do comentário. Escrevi dois. Um preâmbulo, e um outro post sobre o primeiro tema do comentário, o menos importante.

Sobre os outros eu não escrevi, eu pensei. E pensei praticamente tudo, ou pelo menos o essencial do que deveria pensar, e agora não tenho mais vontade de escrever. A modulação vocal é sem dúvida menos laboriosa e cansativa que o exercícios dos músculos e articulações das mãos, portanto, tenho disposição para conversar sobre o documentário. Tenho até mesmo disposição para escrever sobre ele, se for em pequenos comentários. No entanto, acho pouco provável que retome o projeto orginal e escreva os posts articulando tudo o que pensei.

Em outras palavras, se algum visitante deste blog espera ainda a continuação dos posts, lamento. Acho que não continuarei. Acho… No entanto, se você assistiu ao documentário e quer “interagir”, os comentários estão abertos e eu quase sempre respondo.

Mas para não ficar no absoluto vazio, deixo aqui duas idéias que sintetizam a essência de minhas reflexões:

1- sim, dinheiro é dívida. Já cheguei a pensar que o capitalismo era genial por ter sido capaz de converter um objeto em um valor numerico, como faz a ciência, por exemplo. Isso, sem dúvida, torna a troca de mercadorias muito mais simples, justa e eficente que o escambo. No entanto, o capitalismo chegou ao ponto de fazer do próprio capital um objeto que pode ser convertido em um valor, o que se chama “crédito” e que implica necessariamente em dívida. Essa é a essência da sociedade capitalista hoje: a dívida. E por essa dívida somos escravizados. No entanto, tudo isso é um grande sonho, uma grande ilusão, coditianamente alimentada e retroalimentada pelos mecanismos de mídia e instituições de poder que fazem parte do conjunto dos que se beneficiam desse sonho. Vivemos como em “matrix”. Um grande sonho coletivo.

Quando eu era mais jovem, costumava ter a seguinte fantasia: “e se amanhã, quando o mundo acordar, não houver mais dinheiro? Se aquele dinheiro da sua conta bancária, do seu bolso, enfim, todo e qualquer dinheiro, simplesmente, não existisse mais? O que impediria o médico de ir clinicar, o pedreiro de ir construir, o professor de ir ensinar, e o comerciante de passar adiante as mercadorias?”

Sei que é ingênuo, mas me diga, o que impediria? Não vou desenvolver todo o assunto, evidentemente, pois aí estaria “escrevendo” meu “pensamento” e já disse que não quero fazer isso. Vou direto ao fim: a rigor, nada. De fato, não há nada que impessa que todos continuem suas atividades. Haveria apenas uma pequena modificação. Estaria fora das “razões pelas quais faço o que faço” o ítem: “ganhar dinheiro”. Evidentemente isso implicaria em mudanças radicais na condição humana, que no momento, não vejo possíveis a não ser através da engenharia genética, ou da intervenção divina. Creio pouco na possibilidade efetiva de uma revolução cultural, o que não quer dizer que não esteja disposto a contribuir para ela.

Uma outra pergunta: “ok, posso entender que um médico continue exercendo a medicina por puro prazer, e até mesmo que um comerciante saia pela cidade distribuindo bens, mas acho particularmente difícil entender que um trabalhador braçal, um gari, por exemplo, vá varrer as ruas de livre e espontânea vontade, por puro prazer!”. Ora, quem é você leitor, que diz isso? Acaso és Boris Casoy????????? Não importa. Se ninguém quiser fazê-lo, colocamos máquinas para fazê-lo! E os “ex garis” podem passar seu tempo com a famíllia, se dedicando a outras atividades, algum esporte, estudo… talvez se tornem os engenheiros que criaram as máquinas… enfim… Se o professor não tem porque parar de ensinar, não tem porque o gari não ir estudar!

“Ah sim, mas, ok, não existem ferraris para todo mundo, o que você vai fazer então, supondo que a quantidade de pessoas que querem uma ferrari é muito maior que a quantidade de ferraris disponíveis?” Esse é o mais simples de se resolver: pegamos a fábrica da Fiat, por exemplo, a fabrica da Peugeot também, e da Volks Wagen, e ao invés de ficar produzindo uno´s, gol´s, 206´s e essas porcarias, passamos a produzir ferraris! A materia prima é a mesma, o tempo é o mesmo… enfim… Simplesmente, não há nenhuma razão real que impeça. O problema é que se todo mundo tiver uma ferrari, a ferrari deixa de ser ferrari, sacou? E é aí que entra a engenharia genética ou a intervenção divina!

2- A solução apresentada no documentário é bobinha. Parece que o “cabeça” desse negócio leu Walden II, e saiu cheio de idéias mirabolantes. Bem, eu já “escrevi em meu pensamento” o Walden III, que é evidentemente uma continuação de Walden II, aproximadamente 50 anos depois. Em outros termos, a Walden II dos “netos” de Frazer (entre aspas, claro!). Mas o problema, em síntese, é mais ou menos assim: a sociedade em que vivemos, embora não seja “natural”, no sentido próprio do termo, evoluiu em função de forças que ao menos se assemelham ao “natural”.

Isso é particularmente estranho, se pensarmos que nos cremos inteligentes e racionais e que, ainda assim, temos muita dificuldade de “planejar” e fazer acontecer uma estrutura social racional, absolutamente pensada e projetada em seus detalhes mais importantes. Skinner faz isso, mas ele é ingênuo, assim como o Sr. que “encabeça” o movimento “zeitgeist”.

Na prática, seus projetos muito provavelmente sairiam pela culatra, degenerando numa espécie de facismo do pior tipo: justamente o tipo que não pode ser reconhecido como facista, por parecer “racional”. A questão é justamente o problema do gerenciamento. Seja como for, uma sociedade deve ser gerenciada. Atualmente, ela é gerenciada pelos interesses do capital. Platão já havia sonhado com uma república gerenciada por filósofos, e o passo de Skinner foi simplesmente o de mudar o “filósofo” pelo “cientista”, e todos os outros elementos colaterais. O que indica que o “saber” do gerente não é absoluto, e o que pode parecer certo hoje, se revele errado amanhã, e imprimir essa condição à toda a sociedade pode ser catastrófico.

Além disso, seja quem for o gerente, ele teria que lidar com interesses diversos, e inclusive conflitantes, mesmo excluindo o capital da jogada. Cito um exemplo extraído do próprio documentário, relativo ao transporte público. O documentário afirma que o transporte aéreo não é ideal, e que o uso de trens de alta velocidade é mais eficiente. Mas, como assim? Existe uma equação matemática que demonstra isso? E essa equação está certa? E eu serei convencido por ela? Se sim, será que é porque ela é convincente em si mesma ou será que é porque eu fui “condicionado” a ser “convencido” por equações matemáticas? E mesmo que uma equação matemática o demonstre, para o momento atual, será que se concentrarmos nossos esforços no desenvolvimento da tecnologia aeronáutica ao invés de construir redes de trens não obteremos um resultado melhor no final? Enfim, quem decide isso? Quem tem a última palavra? Corremos o risco de nos tornarmos reféns, não dos interesses financeiros de uma elite, mas dos preconceitos e da ignorância de alguns engenheiros e cientistas. É trocar alho por bugalho, enfim.

Apesar do que disse acima, que é só uma pequena amostra do que há para dizer e discutir, há um fato que não posso deixar de salientar: a democracia representativa (aquela onde um “eleito” representa os interesses de uma parte da população) simplesmente não faz mais sentido. Não só não faz mais sentido, como é absolutamente dispensável e descartável no atual momento histórico que vivemos. A internet já elegeu presidente, já minou as bases das oligarquias da comunicação e o próximo passo a ser dado, desejo eu, é que ela possibilite, de vez, o extermínio da classe política.

Porque o alimento da vida é morte? Porque é graças à morte do outro, seja o outro um animal ou um vegetal, que você está vivo meu caro! Daí a engenharia genética, ou a intervenção divina. Mas, não me recuso a tentar uma revolução cultural, até porque, se não tentarmos, nunca saberemos!

O alimento da vida é a morte – segunda parte: o abatedouro

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O alimento da vida é a morte – segunda parte

O abatedouro

Então, a este ponto, considerando que o presente post é uma continuação do post anterior, parto do pressuposto de que o leitor terá assistido ao documentário indicado e seu adendo.

Começo fazendo uma síntese temática do documentário e seu adendo. Me parece que podemos dizer que seu conjunto, para cumprir seus objetivos, atravessa três grandes temas. O primeiro deles é a religião, o segundo a economia e o terceiro e último é o que podemos entender como a proposta para solucionar os problemas identificados nos dois primeiros.

Qual é o problema? É o fato de que a condição humana, especialmente a partir da perspectiva da organização social (a fazenda), é uma condição de opressão e alienação generalizadas, em que o homem (o gado) acaba por se ver escravizado por forças poderosas que em geral ele desconhece (os fazendeiros). Além disso, o pior aspecto deste estado de escravidão é o fato de que, diferentemente da escravidão “clássica” – isto é, aquela que era imposta à força -, esta seria deliberadamente calculada pelos senhores para fazer com que nós desejássemos sermos escravos.

Pois bem. A partir de agora passo então a considerar cada aspecto em separado. O primeiro deles é a tese exposta no documentário a respeito da religião.

A abordagem feita pelo documentário a respeito do tema religião e em especial do cristianismo é basicamente uma abordagem crítica, que tem o objetivo de reduzir os aspectos radicais da mensagem cristã e homogeneizar a função do messias com aquela de outros mitos paralelos.

Acredito eu que ao nos servirmos da razão, nos servimos basicamente de duas ferramentas cognitivas. Uma delas é a nossa capacidade de identificar semelhanças, perceber como uma coisa ou no que uma coisa é semelhante ou igual a outra. A outra ferramenta é a nossa capacidade de discriminar, de identificar as diferenças, isto é, como ou no que uma coisa é diferente de outra coisa.

Toda a história do pensamento humano oscila entre esses dois pólos. Podemos facilmente encontrar correntes filosóficas que ora privilegiam uma, e ora privilegiam outra dessas tendências. No entanto, uma consideração justa e equilibrada das coisas não é muito comum.

Por exemplo, podemos afirmar com a maior tranqüilidade que cada ser humano é único e singular. Que não existe ninguém igual a ninguém. E tenho certeza de que a razão encontrará elementos que justifiquem plenamente esse ponto de vista. Por outro lado, podemos também afirmar que somos todos iguais, que somos literalmente “farinha do mesmo saco”, feitos, cada um de nós, do mesmo pó estelar do que é feito tudo o mais no universo. Além disso, a simples idéia de se acreditar possível fazer uma “ciência” do homem, pressupõe a existência de uma identidade, de uma igualdade entre todos, caso contrário seriam necessárias uma ciência para cada homem. Em outros termos, tenho também certeza de que a razão encontrará elementos que justifiquem, tanto quanto no outro caso, esse ponto de vista.

Da mesma forma essas ferramentas da razão podem ser aplicadas a qualquer coisa. Entre elas, a religião.

Assim, vejo desde o princípio do documentário um esforço de identificação do Cristo com outras variantes de divindades solares, mostrando os inúmeros paralelos que cercam as histórias de todos eles. Entre eles, o mais destacado é o caso da divindade egípcia Hórus.

Como o próprio documentário explicita, não se trata de uma novidade nem de um revelação recente. Os próprios patriarcas da igreja já haviam observado tais semelhanças, atribuindo-as, muitas vezes, à ardilosidade do diabo, mas em outras, que não constam no documentário, ao “logos spermátikos”, isto é, “à semente da palavra”, que já teria sido disseminada entre os povos com uma certa antecedência antes do advento pleno do Lógos.

Além disso, mitólogos e mitógrafos de todas as épocas já haviam salientado tais fatos. Principalmente, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, através de um amplo e exaustivo trabalho de comparação entre os mais variados mitos e religiões (além de sonhos e delírios), e partindo sempre do pressuposto de que estes seriam redutíveis a projeções no campo transcendental da própria natureza humana, chegou a adotar o conceito de “arquétipo”, para se referir a esses “padrões” e protótipos, dos quais demonstrou a universalidade e concluiu com a idéia de um “inconsciente coletivo” – uma espécie de rizoma comum a toda a espécie, onde todos são iguais, e que fornece as estruturas básicas, elementares, por onde toda e qualquer criação da natureza humana deveria transcorrer.

Ora, tudo isso é muito bonito, e realmente, não há como negar as semelhanças entre a estória do Cristo e a de tantas outras divindades. Mas afinal, que semelhanças são essas? Todas elas dizem respeito, digamos, ao mito. No caso do Cristo, por exemplo, o “fato” de ter nascido de uma virgem, de ter iniciado seu opus já em tenra idade, de ter sido morto e crucificado e de ter ressuscitado ao terceiro dia, de ter operado milagres, etc. Além disso, uma série de “títulos” são destacados, por exemplo: “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, o “cordeiro”, “a luz”, etc. Sem contar os aspectos astrológicos ligados ao próprio mito, digamos, a sincronia entre os eventos nas constelações celestes e o próprio tecido da trama.

Pois bem, como disse, todas essas semelhanças são inegáveis, e qualquer um que tenha se dedicado um pouco que seja ao estudo da história cristã não terá se surpreendido com elas. Mas o documentário não faz qualquer menção às diferenças entre as estórias, e embora boa parte dessas diferenças possam ser atribuídas exclusivamente a elementos de natureza cultural e contextual, outras não.

Em primeiro lugar, observemos que o Cristo provém diretamente da tradição judaica. Pode-se argumentar, como se faz no documentário, que o próprio monoteísmo (elemento distintivo do judaísmo nos tempos antigos) teria nascido no Egito. Sim, é verdade: há evidências de que durante um curto período houve no Egito antigo uma tentativa de se instalar uma religião monoteísta. É impossível dizer se isso foi a causa da adoção do monoteísmo entre os hebreus, ou se foi a própria presença maciça de hebreus em terras egípcias, primeiro como conselheiros dos faraós (se crermos nas estórias sobre José) e depois como escravos, que teria influenciado por pouco que seja a cultura egípcia.

Fato é que tal tentativa de instalar um monoteísmo no Egito foi rapidamente sufocada, provavelmente por interesses sacerdotais (os sacerdotes dos outros deuses) que viam assim eliminadas suas fontes de renda. Além disso, esse pequeno proto-monoteísmo ainda implicava em uma identificação do deus Rá com o Sol e na sua personificação na figura do faraó. Tinha, portanto, resquícios fortes de um movimento estritamente político e preservava a figura do “sol” (cuja importância para a humanidade é de longa data reconhecida e louvada) como “forma” do deus em questão.

Ora, se é verdade que a narrativa judaica da criação, do dilúvio e etc. bebeu nas fontes que são as mesmas que deram origem a outras narrativas, como por exemplo aquela babilônica, do Enuma Elish, e outras (evidenciando assim, mais paralelos mitológicos entre as diversas histórias), é também verdade que a narrativa judaica operou uma profunda modificação em sua abordagem.

A essência dessa modificação pode ser assim expressa: em todas as estórias do mundo, há o céu e a terra… há o sol e as estrelas… há as águas e etc.. Todos esses elementos, de um jeito ou de outro, estão ali incluídos. No entanto, é só na narrativa judaica que esses elementos não são deuses. Nas outras mitologias, as águas são, por exemplo, “Tiamat”, ou o Céu é o titã “Uranus”, ou a terra uma das formas da deusa grande mãe, “Gaia”, e por aí vai. Na narrativa judaica, a terra é só a terra, o céu é só o céu e o sol é só o sol. Um luzeiro que serve para orientar os dias, as festas… E não um Deus, que nasce de manha, ganhado a batalha contra Nix, a noite, e perdendo-a no crepúsculo… todos os dias. Enfim, o judaísmo opera uma profunda dessacralização da natureza. A natureza, no judaísmo é reduzida a: natureza. E “o sagrado” não é mais identificado a nenhum desses elementos naturais, mas é suposto o criador de todos eles, mas que está fora de todos eles. O Deus judaico é anterior, e portanto superior, a qualquer elemento natural.

Bem, é no interior dessa tradição que o Messias surge. Não que faltasse a essa tradição paralelos com os mitos de outros povos. Pelo contrário, a própria expectativa da vinda de um messias é um tema comum praticamente a todas as religiões… O escolhido, “the one”, o “filho de Deus ou de algum deus”, enfim.

Fato é que também, enquanto enormes impérios politeístas se degladiavam em torno do mar mediterrâneo, enquanto um pequeno e insignificante povo cultivava sua religião não oferecendo a esses impérios mais que o incômodo de um povo não muito facilmente dobrável em seu espírito, em um período muito curto de tempo, todos esses povos, impérios e nações seriam profundamente afetados e transformados pela religião desse povo. Em um espaço muito pequeno de tempo, para as dimensões da história, toda uma massa humana politeísta estaria convertida a uma ou outra forma de monoteísmo derivada do judaísmo.

Dizia um antigo professor (judeu): “Os judeus só ficaram famosos no mundo graças ao cristianismo”. Pois bem, até aqui o leitor talvez ainda queira sustentar que estamos girando em torno de questões contextuais e culturais. Particularmente, eu acredito que não. Acredito que tais diferenças sim, são culturais, mas são também suficientes para mudar tudo. Mas, andemos ainda um pouco mais adiante.

O documentário questiona, entre outras coisas, a “historicidade” do evento Cristo. Como se, ter ou não ter existido na história fosse um argumento fatal ou, sequer, demonstrável, seja por um lado, seja por outro. Que importa se Pitágoras existiu mesmo ou não? O que importa é que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos! Mas não. No caso do Cristo a questão é bem mais séria.

Apontam que nenhuma grande fonte história importante fez qualquer referência importante ao Cristo. Ora bolas, o testemunho dos que conviveram com Ele não servem como fonte? Além disso, imagine leitor que, nesse momento, surja diante de você alguém que já faleceu, em carne e osso, e que lhe permita que você possa tocá-lo e ter certeza de que sim, de que é ele mesmo. E logo depois esse alguém parta, vá embora. Agora você vai às ruas e começa a gritar: “fulano de tal apareceu para fim, eu toquei nele(a)”. Supondo que você não vá parar em um hospital psiquiátrico, é provável que muito pouca gente te leve a sério, e é absolutamente pouco provável que sua estória seja narrada nos livros de história do futuro.

Mas talvez aí você argumente: ah, mas Jesus era um cara importante, tinha discípulos e tudo mais. Sim, Jesus era uma cara importante. Especialmente, era popular entre as pessoas pobres e humildes de Israel. Para os doutores de Israel e de Roma, não passava de mais um profeta… mais um que esse povo burro e ignorante fica andando atrás… Mais um prestidigitador que fica fazendo truques e enganando esses pobres coitados iletrados e deseducados, que acabam inventando lendas a respeito dele… Honestamente, para que contar a estória desse sujeito? É importante ressaltar que o movimento cristão surgiu pequeno, a seita do nazareno, em seus primórdios, era um pequeno grupo de pessoas e testemunhas mais próximas que haviam acompanhado o Cristo. E se esse mesmo Cristo foi crucificado, o foi entre tantos, e só aos poucos o cristianismo se expandiu e se tornou uma religião institucionalizada, perdendo, inclusive, creio eu, o fio da meada (mas isso é outra estória).

Logo, não vejo porque esperar que um historiador da época dedicasse páginas e páginas de suas “histórias” para narrar as “fábulas” desse povinho analfabeto…

Mas e eu? Acredito eu na ressurreição do Cristo? Honestamente, não penso nisso. Não acho importante. Se a estória acabasse com a morte na cruz, para mim, seria a mesma coisa. Se houver, para mim, uma vida após a morte, é lucro. Mais importante do que a questão da ressurreição, para mim, é a noção de Graça!

O que é a Graça? Meus Deus, eu não tenho a menor idéia, e aí sou obrigado a recorrer aos outros. Em primeiro lugar, quero frisar o seguinte: a Graça é singular, única. Ou seja, é um componente exclusivo da mensagem cristã, que você não vai encontrar nem na estória de Hórus, nem na estória de Dionísio, e nem em nenhuma outra estória de nenhum outro “filho do sol” que “nasceu de uma virgem” e que “morreu e ressuscitou” e que era a “luz do mundo” e estava alinhadíssimo com as estrelas.

A Graça… o que é? A graça é a solução para minha soberba e arrogância, a graça é a solução para o “furo no real”, a graça é o conserto do que não tem conserto, é o que faz possível o impossível. A Graça é a dissolução, o fim do karma!

Se o leitor me permite ser “pop” e parafrasear o Bono, do U2, a graça é o que faz com que o que eu tenho de bom tenha mais valor que o que eu tenho de mal. Tenha mais valor para quem? No mínimo, para qualquer cristão.

Jesus morre na cruz. O que isso quer dizer? Quer dizer o que eu continuarei dizendo nas entrelinhas dos próximos posts sobre o mesmo documentário: que a morte é o alimento da vida (sairei das entrelinhas no último). E isso, nenhuma outra estória de messias crucificado quer dizer.

Em síntese: sim, a mensagem Cristã foi recheada de mitos pagãos, a narrativa da estória Cristã foi formatada segundo os trilhos dos mitos pagãos. E talvez tudo isso tenha ajudado a propagar a mensagem, mas ao custo de ao mesmo tempo escondê-la, pois não é essa a mensagem cristã.

Portanto, Zeitgeist, nesse ponto, a menos que vocês me digam que seus alvos eram “as instituições cristãs”, isto é, a Igreja Católica Apostólica Romana e suas filhas rebeldes, que sempre, inclusive em suas rebeldias, estiveram do lado errado da questão e já deixaram de ser “cristãs” a muito tempo, se tornando parceiras comerciais dos fazendeiros, então, vocês erraram completamente o alvo.

Sobre a economia não. Mas esse é o tema do próximo post. No último, volto ao tema da religião.

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